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quarta-feira, 27 de julho de 2016

Uma Rede de Sustentabilidade





Você já ouviu falar muito em reciclagem, reutilização, sustentabilidade, etc...
Nossa abordagem é sempre no sentido de pensarmos em quanto todos somos responsáveis por essas questões e de como é importante que cada um faça sua parte.





Seja em casa, no trabalho ou mesmo num passeio num parque ou shopping, sempre podemos pensar em como agir de maneira responsável, dando bons exemplos para nossos filhos e todos à nossa volta. Isso é chamado de "corresponsabilidade" ou a responsabilidade de cada um fazendo a sua parte para criar um efeito maior.






Foi pesquisando sobre essas questões que o VinaVina descobriu a RECICLEIROS:
uma organização que se dedica ao desenvolvimento de soluções para a gestão de resíduos sólidos. Especializados no desenvolvimento de soluções para a gestão sustentável de resíduos, são movidos pelo desafio de oferecer soluções capazes de aliar custos competitivos com desenvolvimento social e redução dos impactos ambientais.

Outro fator com o qual nos identificamos muito foi o conceito de trabalho conjunto, em rede, para somar conhecimentos e aptidões, assim como temos feito aqui na Vina e nas ações do nosso Departamento Socioambiental.


Saiba como montar, em casa ou no trabalho, um sistema de organização do lixo de forma fácil e funcional. Por Erich Burger, fundador da Recicleiros.

"Entendemos a sustentabilidade como consequência de uma adaptação cultural e mudança perene de hábitos de consumo. A gestão sustentável de resíduos depende da atitude de cada ser humano e que ele seja o elemento de transformação da realidade onde está inserido. Desenvolvemos projetos para educação ambiental com foco no incremento de resultados dos nossos projetos e na mudança de atitude de nossos públicos." (Recicleiros)

Veja mais em


E VEJA ESSAS BOAS DICAS TAMBÉM:

Instituições de Reciclagem de Resíduos
Aqui você encontra listas de empresas e instituições que compram ou aceitam doações de materiais recicláveis.



Descarte seus Resíduos
Garanta um destino correto, com segurança e economia.




Pontos de Reciclagem
Um passo-a-passo de como encontrar cooperativas e sucateiros perto de você

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Fantasias de material reutilizado

 O Carnaval está chegando! O que você acha de usar materiais simples, baratos e fáceis de serem encontrados para confeccionar sua fantasia? 


Sacolinhas plásticas, garrafas PET, retalhos de tecidos e diversos outros tipos de materiais podem ser reutilizados na hora de preparar a sua fantasia! A consciência ambiental deve sempre estar presente no nosso dia a dia, desde medidas simples e pequenas atitudes, como a separação correta do lixo, até medidas mais criativas, como a confecção de apetrechos para adultos e crianças curtirem a folia!

Para a criançada 
As crianças podem utilizar o que encontram da natureza para brincar e se fantasiar! Pétalas de flor, folhas do chão, penas, sementes... Use a criatividade! Aqui, vamos ensinar a fazer uma fantasia de folhas.

1. Escolha folhas de tamanhos, cores e texturas diferentes. 
2. Pegue alguns gravetos e váo prendendo as folhas uma na outra. Você também pode usar barbantes para amarrar as peças.
3. Use as flores para deixar a fantasia ainda mais bonita. 
4. Com esse processo, você pode inventar com seus filhos a fantasia que quiserem. Veja os desenhos e invente muito mais! 

Imagens e texto retirados do livro "Barangandāo Natureza", do educador Adelsin.

As fantasias também pode ser feitas com papel reutilizado, como folhas de rascunho, papel de seda, embalagens de presentes e jornais antigos. Com um pouco de barbante, fita crepe e um tubinho de cola, é possível criar diversas fantasias! 

O primeiro passo é a ideia. Pergunte para os seus filhos do que eles gostariam de se fantasiar. Depois é só ir colando, amarrando as folhas e construindo um personagem. Pode ser uma princesa, uma fada, uma bruxa, um cavaleiro, um pajé, um bicho ou qualquer outra coisa. Se você tiver papel crepom, pode usar junto com o jornal para dar um pouco de cor à fantasia.

Imagens e texto retirados do livro "Barangandāo Natureza", do educador Adelsin.

Confira esse vídeo: crianças fazendo máscaras com material reutilizado! 



Para os adultos 
Que tal aproveitar o Carnaval para fazer uma limpa no guarda-roupa? Peças que você não utiliza mais podem se transformar em belas fantasias! Também vale soltar a criatividade e fazer máscaras com embalagens de produtos de limpeza ou com caixinhas tetra pak.

Aqui no vinavina, a artista e designer Cristina Araújo já nos ensinou o passo a passo para fazer uma máscara utilizando uma embalagem de detergente multiuso. Clique aqui e confira.


As máscaras também podem ser feitas com caixinhas tetra pak. Confira no vídeo como fazer:


Também dá pra fazer um molde de papelão, forrar com tecido e aproveitar os retalhos, revistas ou pedacinhos de papel para finalizar com o efeito de colagem! Você pode escolher um molde clicando aqui e imprimir! O resultado é mais ou menos esse: 



Carnaval com reutilizaçāo:
o Vinavina apoia!! 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Descartando o consumo!

Atualmente, a humanidade consome mais recursos renováveis do que a Terra consegue regenerar. Apenas 16% da população mundial é responsável por 78% do total do consumo no planeta e essas mesmas pessoas são também responsáveis pelo descarte dos resíduos daquilo que consomem. 

É urgente que o nosso consumo se torne mais consciente e que o modelo de produção seja mais sustentável. Quanto maior a vida útil de um produto, menor será a necessidade de descartá-lo. Se a  reutilização ou o conserto não forem opções possíveis, a reciclagem dos resíduos é o caminho. 

Assim, será possível alcançar o bem-estar desejado pela sociedade com um uso muito menor de recursos naturais do que o atual por meio de, ao mesmo tempo, uma produção mais responsável e um consumo mais consciente.




No Brasil, cada habitante gera em média 1,1 kg de resíduos por dia. 
O que fazer com eles? 

A coleta seletiva surgiu como uma possibilidade para a destinação dos materiais que podem ser reciclados. Esse processo consiste na separação e no recolhimento dos resíduos descartados, que são destinados à reciclagem, que é a utilização, como matéria-prima, de um produto que seria considerado lixo.

É ei. Desde 2011, está em vigor a norma da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). A Lei nº 12 305, que tramitou no Congresso por 21 anos, determina que todos os municípios do Brasil devem fazer a separação do lixo corretamente, através da coleta seletiva. O objetivo é dar um destino correto para os mais de 57 milhões de toneladas de lixo que o Brasil produz por ano, segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Desse total, apenas 2,4% dos resíduos sólidos são reciclados.




Belo Horizonte (MG) descarta por volta de 3.500 toneladas de lixo diariamente. A coleta seletiva na cidade existe desde 1993 e ocorre em duas modalidades: ponto a ponto, em que a pessoa deve destinar seu lixo reciclável a contêineres específicos disponíveis na cidade; e porta a porta, em que o caminhão da Prefeitura recolhe os recicláveis na porta da casa de cada um. O programa BH Recicla, lançado em 2007, é uma expansão do serviço de coleta seletiva. 

Coleta Seletiva Porta a Porta
Neste tipo de coleta, os materiais recicláveis são separados pelos moradores, colocados no passeio para serem coletados por um caminhão baú. Atualmente, a coleta porta a porta está presente em apenas 30 bairros de Belo Horizonte, que possui, no total, 284 bairros. É muito pouco!
Para ter o seu lixo recolhido, basta separar os materiais recicláveis (papel, metal, plástico e vidro), higienizá-los e colocá-los no mesmo saco plástico, no passeio, às 8h, no dia definido para a coleta seletiva da sua rua. Confira aqui os bairros atendidos. 


Coleta seletiva ponto a ponto
Nesse tipo de coleta, são instalados contêineres nas cores padrão definidas pela Resolução do Conama para os materiais recicláveis: azul para o papel, vermelho para o plástico, amarelo para o metal e verde para o vidro. A população separa os recicláveis em sua residência ou local de trabalho e os deposita nos contêineres instalados pela Prefeitura. Cada endereço é chamado de Local de Entrega Voluntária (LEV). Confira aqui os endereços dos LEVs.




Como você pode ajudar

• Não jogue lixo ou entulho nas vias públicas, córregos, lotes vagos, bueiros e encostas. Além de poluir a cidade, o lixo nas ruas entope bocas de lobo e pode provocar enchentes.

• Embale corretamente seu lixo, em sacolas resistentes, bem fechadas e de tamanho adequado, para evitar que elas se abram e espalhem o lixo nas vias públicas. Lixo não embalado, além de exalar mau cheiro, atrai animais que podem ser portadores de doenças.

• Proteja o vidro e outros materiais pérfuro-cortantes (estiletes, pregos, lâminas) com material resistente antes de colocá-lo na sacola e pressione as tampas das latas para dentro. Esses materiais desprotegidos podem ferir os garis e os catadores, mesmo que eles estejam usando as luvas protetoras.

• Agulhas de seringas não devem ser jogadas no lixo, entregue-as em um posto de saúde devidamente acondicionadas.

• No trânsito, respeite os cones de sinalização. Eles estão ali para proteger os varredores, que estão trabalhando para deixar a cidade mais limpa para todos nós.

• Zele pela conservação dos cestos coletores e dos contêineres de coleta seletiva. A depredação é prejudicial a todos.

• Respeite os dias e horários de exposição do lixo para coleta, evite deixar seu lixo na rua por mais tempo que o necessário.

• Também não devem ser jogados no lixo domiciliar resíduos como pilhas, baterias, lâmpadas, pneus, etc. Esses materiais constituem os chamados Resíduos Especiais, e devem ter destinação especial. Pilhas e baterias, por exemplo, devem ser encaminhadas aos fabricantes, que são responsáveis pela sua destinação correta. Veja aqui mais detalhes sobre esse tipo de descarte.

• Não queime o lixo. Essa prática é proibida.

• É dever do proprietário do imóvel preservar e manter limpa a calçada em frente ao seu estabelecimento ou residência.

• Quem produz entulho de construção civil deve dar a destinação adequada para eles. O caminhão da SLU não recolhe entulho.

• Restos de poda, entulho e móveis velhos não são recolhidos pelo caminhão. Leve-os para uma Unidade de Recebimento de Pequenos Volumes (URPV). Consulte aqui a mais próxima de sua casa.

• Lugar de lixo é no lixo. Use as lixeiras. Não jogue lixo no chão.

• O caminhão da coleta seletiva recolhe só o material reciclável. O lixo comum não é recolhido por ele. Portanto, não misture os materiais recicláveis com o lixo comum.



SE-PA-RA-DO
Tudo fica novo, de novo!


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Na Lata


O Na Lata publica, mensalmente, neste blog, uma entrevista ou um texto interessante - sempre inéditos - que aborda o universo das boas ideias, das melhores práticas e das pequenas e grandes soluções para as questões atuais que envolvem a relação da sociedade com o meio ambiente. Repensar, reinventar e reaproveitar novas ideias e diferentes materiais será sempre a nossa proposta.

Nem lixo, nem sucata: 
todo material é matéria-prima para a arte.

O nosso mundo contemporâneo vive hoje uma realidade que, a cada minuto, nos pede soluções urgentes que, marcadas pela ética, pelo respeito ao outro e ao planeta, possam apontar novos caminhos que nos conduzam a uma vida mais equilibrada, pacífica, sustentável e, consequentemente, mais bonita e feliz. Dentre as posturas socioambientais que vêm ganhando importância e mais adesão na direção de uma vida melhor para todos, está a reutilização de materiais. Companheira de outros importantes R’s (repensar, reaproveitar, reciclar e recusar), a reutilização de materiais vem demonstrando que as suas mais variadas possibilidades ainda podem ser melhor aproveitadas e incorporadas como boa prática coletiva e como atitude individual. A nossa entrevista de novembro buscou uma vertente da reutilização que aponta para um caminho tão promissor quanto transformador: o campo das artes. Afinal, a arte é o canal ideal para a expressão da beleza, da sensibilidade, da harmonia e da transformação de realidades. 
Vamos conhecer um pouco da história de vida da artista e arte-educadora Lucia Kubitscheck. Desde 1997, quando frequentou o Center for Book Arts, de Nova York (EUA), ela vem descobrindo novos caminhos e novos materiais para expressar suas idéias originais, seu talento e seu compromisso em favor do meio ambiente. 

Lúcia, no Departamento Socioambiental da Vina, com sua obra: Open House.

Para quem nunca havia pensado em ser artista e que, já formada em Economia, viveu no Brasil, na Nicarágua, em Portugal, na Holanda e na Alemanha, trabalhando com planejamento e reforma agrária, a sua opção pela arte é surpreendente. Depois de viver em tantos lugares, porque você foi para Nova York e como foi que descobriu a book art?
Lúcia Kubitscheck:  Realmente, eu nunca havia pensado em ser artista. Mas quando decidi ir para Nova York eu já estava vivendo um processo de transformação pessoal. Queria, de fato, mudar minha vida. Comecei criando álbuns para fotos com papel reciclado, pré-papel feito com cascas de árvores e palha de coqueiro, e decorados com folhas e flores, que eu coletava no Prospect Park. Era uma produção bem artesanal, com uma estética rústica, vendida por mim para amigos e para algumas lojas de objetos e cheguei, inclusive, a vender designs para uma revista feminina. Por indicação de uma amiga, cheguei ao Center for Book Arts (Centro de Artes do Livro), em 1997, e lá pude conhecer de perto as possibilidades estéticas do livro como objeto de arte. Frequentei oficinas e desenvolvi a utilização de diversas técnicas tradicionais e contemporâneas ligadas à encadernação, à cartonagem, à colagem, entre outras tantas. Me encantei e direcionei o meu trabalho para a exploração da estética do livro contemporâneo: o formato, a variedade de papéis, o livro-objeto e o desenvolvimento de novos objetos a partir daí. Desde então, meu material básico de criação é o papel.

Como você define o seu trabalho atual com a arte?
Lúcia Kubitscheck: Conceitualmente, o meu trabalho pode ser definido como universal. Ele é multicultural e incorpora elementos do feminino, da religiosidade brasileira e da busca constante por uma estética inovadora. Nas minhas criações, além da aplicação de várias técnicas, eu também utilizo suportes diversos – como bolsas, malas e caixas -, que recebem a nova função de acomodar e exibir as obras. As técnicas de cartonagem, encadernação, colagem, assemblagem, pintura, acoplagem, dobraduras de papel, assim com o a combinação de diferentes tipos de materiais, enfatizando colecionáveis, aparas de papel e a reutilização de peças e objetos, são marcas da minha criação.

Desde os álbuns criados em Nova York, a reutilização de materiais está presente no seu trabalho. Como você trabalha a incorporação desse conceito na sua atuação profissional?
Lúcia Kubitscheck: A reutilização está presente tanto em meu trabalho artístico quanto no meu trabalho social. Diante da proposta ampla dos cinco R’s, eu escolhi a reutilização como foco porque o descarte de materiais com possibilidades incríveis de reutilização – que é diferente da reciclagem - é imenso. Meu olhar para esses materiais é, hoje, o olhar de uma artista consciente do valor que eles têm. E justamente por isso, eu não aceito que eles sejam simplesmente jogados fora. Além dos objetos de arte, eu desenvolvo projetos originais na produção de cartonagem própria para escritórios – pastas, papeleiras, porta-papel, porta-lápis, porta-cartões, marcadores de livros – e vários tipos de álbuns.

 Obra: "My Love is For You"

Você também é arte-educadora e vem desenvolvendo trabalhos com grupos e instituições nas quais a reutilização de materiais e a recuperação de técnicas gráficas tradicionais são o ponto de partida para a criação coletiva de projetos artísticos, culturais e socioambientais. Como tem sido o seu trabalho com a arte-educação?
Lúcia Kubitscheck: Depois que eu voltei para o Brasil, e para Belo Horizonte, minha cidade, eu senti a necessidade de aprimorar os meus conhecimentos para consolidar o meu trabalho e ampliar a minha atuação social. Fiz uma pós-graduação em Arte e Educação, na UEMG, sempre com o foco no meu processo de criação.  A partir daí, participei e ministrei inúmeras oficinas de artes gráficas e de encadernação. No período de 2008 a 2010, trabalhei com a ONG Memória Gráfica – Typographia, Escola de Gravura, instituição voltada para a formação artística e gráfica de adolescentes entre 14 e 21 anos em situação de risco social e em conflito com a lei, sediada no Bairro Horto, em Belo Horizonte (MG). Lá desenvolvi projetos gráficos e fui coordenadora da equipe de professores na proposta interdisciplinar do projeto da Memória Gráfica: gravura, alfabetização visual, construção de textos e tipografia. Hoje, a Memória Gráfica está instalada também no Centro Cultural da UFMG, onde mantém o projeto Museu Vivo que, além de expor as antigas máquinas tipográficas recuperadas e abrigar artistas gráficos, continua a oferecer oficinas e cursos voltados para as artes gráficas (encadernação, encadernação antiga, marmorização, tipografia, entre outros). Nessas novas instalações eu já ministrei a oficina Estruturas Contemporâneas de Encadernação, que deve ser oferecida novamente no primeiro semestre de 2012.


Saiu recentemente na mídia que coleta seletiva de Belo Horizonte só atende a 14% da população e que, atualmente, só consegue recuperar 2,65% do total anual de 284 mil toneladas de materiais recicláveis disponíveis. Como é que você se sente em relação a essa realidade?
Lúcia Kubitscheck: Eu me sinto totalmente impotente diante dessa situação absurda. Primeiro, isso é uma questão política séria. Mesmo com algumas iniciativas acanhadas da SLU e a atuação corajosa de cooperativas e associações de catadores, não existe uma campanha pública efetiva que trabalhe as questões do desperdício, da poluição do ar e das águas. Não sei se você se lembra, pois foi há muito tempo, mas a do “Sugismundo” foi a última campanha pública de fato em favor da limpeza urbana. A Prefeitura de Belo Horizonte não está fazendo a parte dela: a coleta seletiva é irrisória, não existem espaços adequados e suficientes para a coleta e devida separação dos materiais recicláveis. Além do descaso com uma questão séria e urgente, a postura da PBH é pouco inteligente. Acham mais simples (e mais barato...) esgotar a capacidade de um aterro sanitário, com sérias consequências ambientais, do que investir em programas educativos e em infraestrutura para a coleta e a separação de recicláveis em parceria com as associações e cooperativas existentes. Na verdade, eu acredito que solução está na atitude individual em direção ao coletivo. O processo tem que ser de construção de uma consciência comunitária, cada um fazendo a sua parte e exigindo que o poder público faça a parte dele.

Material de divulgação do Departamento Sociomabiental produzidos pela Lúcia, em 2010.

E como foi o seu encontro com o projeto socioambiental da Vina?
Lúcia Kubitscheck: O primeiro contato com o projeto da Vina partiu de um convite que me foi feito pela Cláudia, coordenadora do Departamento Socioambiental, para criar um objeto de arte para integrar o acervo da sua sala especial – toda montada com mobiliário e utilitários criados a partir do reaproveitamento de materiais. Criei um objeto de arte muito curioso, que chamei de “Open house” e que representa simbolicamente um centro cultural. Depois disso, o Departamento Socioambiental lançou, no final de 2010, a campanha “Desembrulhe com carinho” que convidava as pessoas a desembrulhar os presentes de Natal com cuidado e a separar as embalagens para a Vina. As embalagens (incluindo fitas, cordinhas, sacos, sacolas) seriam recolhidas, separadas, selecionadas e transformadas em objetos utilitários para os escritórios e em brindes para as ações institucionais da empresa. Novamente fui convidada a desenvolver um projeto para a Vina e, dessa vez, com o material coletado na campanha. Trabalhando o design gráfico com o conceito socioambiental, eliminando logomarcas, selecionando palavras positivas e combinando materiais, desenvolvi porta-cartões, marcadores de livros e capas para documentos e relatórios do Depto. Socioambiental. Além disso, com esses materiais, desenvolvi também uma linha de utilitários de escritório para a sala da Profa. Tereza Aguilar, na Escola de Engenharia da UFMG. A campanha foi rica no seu propósito educativo e reforçou a atitude de responsabilidade socioambiental da Vina. Tanto que a campanha “Desembrulhe com carinho” será repetida este ano.
E tem mais: estou coordenando, agora em novembro, a oficina de produção do brinde 2011 da Vina – um jogo de Tangram - que será oferecido aos clientes e amigos da empresa. Seguindo uma tradição do Depto. Socioambiental de trabalhar sempre com inclusão e com o reaproveitamento de materiais, a oficina está sendo realizada com integrantes do Clube de Mães Harmonia, ligado ao Lions Clube Santa Tereza. Estamos produzindo as embalagens (criadas por mim) com retalhos de banners, recortes de bandejinhas de isopor e papelão pintado. Além da produção do brinde, estamos trabalhando conceitos estéticos e o desenvolvimento criativo de um produto, desde a concepção, a montagem, até a avaliação dos custos de produção. O resultado tem sido surpreendente.


Como já estamos, por incrível que pareça, no final do ano, você pode nos contar sobre os seus planos para 2012?
Lúcia Kubitscheck: Meus planos para o novo ano incluem um maior investimento no meu trabalho com arte-educação, com a criação e a realização de novas oficinas e, especialmente, vou me dedicar a preparar uma nova exposição. Não sei ainda o local, mas posso adiantar que a base desse novo trabalho serão gavetas de tipografia, que encontrei já em processo de decomposição. Elas serão recuperadas e serão o suporte para uma coleção de miniaturas criadas com papéis e materiais muito especiais. Não quero deixar de mencionar também que estou trabalhando na criação de uma linha exclusiva de utilitários para cafeteria.
Aproveito a entrevista para desejar que todos desembrulhem com carinho os presentes de Natal e que façam, para 2012, um bom propósito: reaproveitar muito e, assim, diminuir o lixo na cidade, no País e no planeta. 

Lúcia Kubitschek e algumas integrantes do Clube de Mães Harmonia

Entrevista realizada
em 22.11.2011 por Élida Murta.

Lúcia Kubitschek é artista plástica, arte-educadora, mora em Belo Horizonte (MG) 
e, além de ministrar oficinas particulares e coletivas de artes gráficas, 
tem dedicado parte do seu tempo a aprender técnicas de pintura.

EXPOSIÇÕES
2011 – 9o. Salão de Arte Contemporânea de Marília (SP), Brasil.
2010 – “Ego’s Dialogue”, “My Love is for You” e “New Millenium” –
Exposição Entre Amigos, Juçara Costta Epaço de Arte, BH, Brasil
2006 – “Open House” - Exposição permanente na VINA Equipamentos, Brasil
2004 – “Capela da Nonna” - Uma viagem de 450 anos a São Paulo - SESC SP/Brasil
2004 - “A Bagagem Mineira” - Biblioteca Pública, BH, Brasil
2002 - “Canteiro de Obras” – Sala JK, arquiteta Izabela Vecci, Casa Cor, BH, Brasil
2000 – “Na Han” and “My love is for you” - Galeria Celma Albuquerque, BH, Brasil
1998 - Na Han” - Book Works - CBA NYC USA 

               
 Algumas dicas de Lúcia

> Projeto EcoBolsa Brasil
Cuidar do Livro - Pedro Malansk
Projeto Social incentiva jovens carentes
> Projeto Memória Gráfica e parceria com o Centro Cultural UFMG
> Resgate da vida: Memória Gráfica
> Museu Vivo Memória Gráfica



quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Na Lata


O Na Lata publica, mensalmente, neste blog, uma entrevista ou um texto interessante - sempre inéditos - que aborda o universo das boas ideias, das melhores práticas e das pequenas e grandes soluções para as questões atuais que envolvem a relação da sociedade com o meio ambiente. Repensar, junto com vocês, será sempre a nossa proposta.


Estamira: mostrar a verdade e capturar a mentira 


A sociedade de consumo atual é marcada pelo excesso. O consumo excessivo gera um excesso de lixo e de resíduos que, por sua vez, geram inúmeros problemas que refletem a forma como a humanidade se organiza e se engana. Dentre esses problemas, a desigualdade social – que é profunda em países como o Brasil – expõe uma série de excessos e de condições extremas de vida. Podemos dizer que essa desigualdade cria realidades que colocam seres humanos na condição de “lixo”, no sentido extremo do desrespeito, do descaso e da negação de uma vida digna.

Marcos Prado, diretor e produtor de documentários importantes, como Ônibus 174 (2002), dirigiu o premiadíssimo filme documentário Estamira. Lançado em 2005,o filme apresenta ao público um pouco dessa realidade desconhecida de quem vive na borda do mundo, em meio ao lixo. Estamira, personagem principal do filme, é uma mulher que foi abusada sexualmente na infância, que foi levada à prostituição na adolescência, que tinha uma mãe que morreu no hospício, que se casou mais de uma vez - e foi traída inúmeras vezes -, que teve filhos e netos, que conheceu a violência em suas várias formas, que tinha amigos calorosos (e até pretendentes!) no aterro sanitário do Jardim Gramacho, que recebia a família nos fins de semana em seu barraco (família esta que lidava de uma maneira interessante com sua loucura, sem rejeitá-la) e que buscava remédios psiquiátricos em um centro de atenção psicossocial (onde estão os “copiadores de receitas semifabricadas”). 

Convidamos um especialista em Saúde Mental e doutor em Ciências da Saúde para conversar com a gente e, a partir do documentário Estamira, tratar de questões que afetam o ser humano nos seus direitos básicos de dignidade e de sobrevivência no mundo contemporâneo. Com a palavra, o Dr. Musso Greco.


Estamira é uma personagem fascinante e uma pessoa com uma história de vida incrível. Como você poderia situar a loucura dela?
Musso Greco - Realmente Estamira é um personagem único! Exaltada e tensa, ela se apresenta como alguém cujo corpo sofre - o que ela atribui ao “controle remoto natural superior” - e que é perseguida pelos “espertos ao contrário”, que controlam o mundo e manipulam a realidade. Em razão disso, ela constrói uma visão de mundo contundente, singular e - por mais que possa parecer estranho, em se tratando de alguém tão enlouquecido - coerente, a ponto de merecer protagonizar um filme. Para os espectadores, as imagens do corpo maltratado e da voz inflamada de Estamira são brutas, ela é uma “estrela” de cinema pouco usual... Parece, como já disse alguém, uma atriz fugida de uma tragédia grega. E seu discurso é feroz, autorreferente, intenso demais. Aos poucos, entretanto, vamos nos inteirando de sua “religião” (uma briga constante com Deus e suas mentiras: “Trocadilo é Deus ao contrário!”), de sua missão no mundo (“mostrar a verdade e capturar a mentira”), e ela deixa de ser tão “estrangeira”, ela se revela mais parecida conosco do que imaginaríamos. Até mesmo as suas crenças, tão bizarras e inverossímeis, começam a parecer legítimas com qualquer sistema filosófico não erudito. Enfim, uma pessoa que, embora se afirme pela singularidade (“eu estou em um outro plano”), e se mantenha nessa terceira margem que é o Gramacho, também pode ser reconhecida como “uma de nós”, pelo lado negativo, ao encarnar emblematicamente a desigualdade social e a crueldade da sua condição.

Em que sentido podemos dizer que a situação de Estamira reflete a desigualdade em nossa sociedade atual: um modo perverso e excludente de organização social? Podemos estabelecer uma comparação e dizer que a grande massa de miseráveis que esta desigualdade produz é colocada na condição de “lixo”?
Musso GrecoPenso que a metáfora do “lixão” no filme serve para confirmar uma vocação perturbadora em Estamira, pois o espectador não sai ileso da viagem cinematográfica. Aquilo que é jogado fora aqui, na nossa casa, retorna do lugar do outro, lá na tela. O lixo, como diz Estamira, “às vezes é só resto, mas, às vezes, também vem descuido”. Assim também são tratadas as mulheres, as mulheres pobres e negras, e, principalmente, as mulheres pobres, negras e loucas (“doente mental é aquele que é imprestável”, diz Estamira).  É lá que ela está. No meio, na beira, em todo lugar (“eu sou a beira do mundo, estou em todo lugar”), porque é “abstrata”. Podíamos interpretar essa abstração de que fala Estamira como sua percepção inconsciente do que é ser nada, não ter registro no mundo, não ter concretude simbólica, restar largada na margem extrema do mundo (a miséria, o lixo ou a clausura de um hospício) como um objeto sem valor.


Há algo na fala delirante de Estamira que possa servir como denúncia social real?
Musso Greco - Não podemos desconhecer que é a radical alteridade de Estamira que faz com que ela não encontre ressonâncias com os outros, que não tenha aliados em sua missão, que não faça laço social a partir de seu delírio. Na sua revolta contra Deus e suas disputas com o misterioso “Trocadilo” (“canalha, traidor, estuprador”), entretanto, ecoam as rusgas metafísicas de filósofos e artistas ilustres, como Nietzsche, por exemplo, para quem “o mesmo homem que criou Deus, colocou-se no lugar dele, ou seja, no lugar do juízo”; ou como Artaud, que blasfema estamiricamente contra “o julgamento de Deus”. Minha compreensão é de que há uma revolta de Estamira contra um mal-entendido fundamental (um trocadilho) no fato de Deus não conhecer verdadeiramente o homem e enganá-lo: podemos ver aí uma espécie de denúncia de uma injustiça básica que ela toma para si, mas que é, pelo que sabemos de sua história de vida, referente a tudo que é descartado no mundo, a começar pelas pessoas “imprestáveis”. O delírio revela-se assim como uma tentativa espontânea de cura, de estabilização, e Estamira apela ao recurso de se produzir como aquilo que faltaria ao universo do discurso para reconstruir a realidade. Estamira está “no centro de tudo”, “além dos além”, “em todo lugar”, e ocupa o posto da “visão de cada um”, tornando-se uma entidade e assumindo uma missão. Não seria isso tudo exatamente uma luta por justiça ou, como ela diz em certa parte do filme, pela “igualdade de todos” ?

As necessidades básicas humanas – tanto as objetivas (alimentação, saúde, moradia, bens materiais, educação, etc.) quanto as de ordem subjetiva (desejo, ações, valores, modo de vida, liberdade, justiça, cultura, etc.) deveriam ser atendidas como direitos universais e inquestionáveis. No entanto, na história da humanidade, isso nunca foi uma realidade. Em que este filme contribui para a conquista dos direitos à cidadania?
Musso GrecoContardo Caligaris, ao analisar o paradoxo da existência delirante de Estamira, disse que toda crença  − ele estava se referindo às nossas crenças “normais” − são delírios que tiveram sucesso e ganharam credibilidade por serem compartilhados pela maioria. O drama de Estamira (e de tantos outros ditos “loucos”) foi ter que inventar, sozinha, os meios de dar sentido à sua presença no mundo. Ela conseguiu essa façanha atribuindo-se o destino de ter de transmitir o que ela vê e revelar isso ao mundo. De certa forma, o diretor Marcos Prado realizou essa missão, ao propiciar a expressão de Estamira em um documentário que rodou o mundo. A metáfora da desigualdade social e da crueldade está ali, para impactar e fazer pensar. Estamira é o retrato da nossa culpa social, de nossos detritos, daquilo que nós queremos esconder no fim de mundo. Em seu transbordamento interior, ela encarna o desespero, e desamarra o espectador de si mesmo, naquilo que tem de confortável e conhecido, deslocando-o para fora de suas referências habituais. Isso instala uma escuta verdadeira, que pode, por pouco que seja, produzir interrogações sobre o que é apresentado. No meio dos restos de uma sociedade cada vez mais voraz, Estamira mostra o avesso das boas intenções e desmascara o que ela chama dos “espertos ao contrário”. O equívoco da ciência, o declínio do político, o engano da religião, o catastrófico das pequenas e grandes violências. Tal qual Marcos Prado, que deu uma casa de presente a Estamira após as filmagens, tenho notícia de certa mobilização após a exibição desse filme, no meio universitário, em ONGs que lutam pelos direitos humanos (principalmente dos portadores de sofrimento psíquico)... Isso pode produzir algum efeito em termos de mudanças políticas.


Ecologia humana é a ciência que estuda as trocas materiais e energéticas entre o ser humano e o seu ambiente. É o campo do conhecimento sobre o qual se constrói a ideia de sustentabilidade, considerando que a sobrevivência individual e do planeta dependem da construção de uma ética individual para desenvolver uma ética global. Há uma ética própria da loucura? Se há, ela pode influenciar os outros, os que não a entendem? Como fica a visão da loucura depois de ver esse filme?
Musso Greco - Caímos aqui em uma delicada questão política que o filme toca: ao mostrar a aparente ineficácia do seu tratamento na rede pública de Saúde e, embora, pelo que vemos, pareça haver uma rede de apoio (amigos, família) em torno de Estamira, perguntamo-nos sobre a visão social da loucura reforçada ou transformada pelo filme. Sabemos que a medicação e o suporte psicossocial têm mostrado relevância em muitos casos semelhantes, permitindo, à custa de um apaziguamento da atividade delirante, uma melhor inserção sociofamiliar. Pelo que vemos no documentário, o tratamento psiquiátrico parece ter pouca importância na vida de Estamira; ela tem pouco vínculo com o centro de atenção psicossocial ao qual está ligada; e ela não parece estar bem, sempre tão exaltada, sofrendo... Um técnico de Saúde Mental, para tratá-la de fato, teria que ocupar um lugar próximo ao que Marcos Prado encontrou, “secretariando-a” na construção de seu delírio... E a proposta de Estamira, sua “ética”, é muito radical: para as coisas “terem jeito”, a solução dela, no final do filme, seria a destruição de tudo e uma reconstrução do zero (“se tiver que me queimar para as pessoas terem lucidez, tudo bem”)...Não acho que a saída pela loucura seja solução para nada. O que fica para mim, após este filme, é uma pergunta: seremos capazes, em termos de política pública de assistência e como sistema de relações na cidade, de acolher as diferenças, e nos reconhecermos nesse outro insondável e refugado que habita a borda do mundo?


Musso Greco é psiquiatra, psicanalista, especialista em Saúde Mental pela Escola de Saúde Pública de Minas Gerais (FUNED), mestre em Psicologia Social pela UFMG, doutor em Ciências da Saúde pela UFMG  e sócio-fundador da ONG Associação Imagem Comunitária (AIC); é coautor, entre outras publicações, de “Corpo, sintoma e psicose: leituras do contemporâneo” (Contra Capa Livraria, 2006).



Entrevista realizada por Élida Murta 
em 20 de setembro de 2011




Estamira: o filme e a realidade


O premiado filme, dirigido pelo diretor Marcos Prado e lançado em 2005, conta a história de Estamira: uma mulher de 63 anos que sofria de distúrbios mentais e que trabalhava há mais de vinte anos no aterro sanitário do Jardim Gramacho, um local renegado pela sociedade e que recebia diariamente mais de oito mil toneladas de lixo produzido na cidade do Rio de Janeiro (RJ). 

Seis anos depois, muito do que é denunciado no filme confirma uma realidade que ainda não mudou: Estamira morreu no dia 28 de julho de 2011, de infecção generalizada, aos 72 anos, por falta de atendimento médico no Hospital Miguel Couto, no Rio de Janeiro. 

O próprio diretor Marcos Prado desabafou, em sua página do facebook, sobre a morte de Estamira:"Estamira ficou invisível pela falência e deficiência de nossas instituições públicas! Morreu depois de ficar dois dias esperando por atendimento nos corredores da morte do nosso maravilhoso serviço público de saúde do Miguel Couto. Ela estava com uma grave infecção no braço, mas foi tardiamente atendida. Obrigado, meus políticos de Brasília, do Rio de Janeiro, que roubam nosso dinheiro e enfiam sei lá onde". 


"O homem não pode ser incivilizado, todos os homens tem que ser iguais, tem que ser comunistas. Comunismo é igualidade. Não 'é' obrigado todos trabalharem em uma coisa só, nem comer uma coisa só, mais a igualidade é a 'ordenança' que deu quem revelou o homem como único condicional". 

(Estamira)



Confira no INdica as dicas de leitura e pesquisa do nosso entrevistado, Musso Greco. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Da Invisibilidade à Cidadania


Jardim Gramacho (RJ). Foto: Marcos Prado

Por Sônia Dias

No livro As Cidades Invisíveis, o escritor italiano Ítalo Calvino brilhantemente nos descreve a cidade de Leônia, onde a opulência é medida pelas coisas “...que todos os dias são jogadas fora para dar lugar às novas”. Noutro registro no âmbito da arte, o filme Estamira nos apresenta esta catadora visionária, a Estamira, que de sua mirada do lixão de Gramacho também nos convoca a repensar nossos conceitos, estereótipos e práticas e nos incita a rever nossos paradigmas perdulários e de descaso com o homem e o meio ambiente. 

As indagações que os dois registros acima citados nos colocam são: quais são as possibilidades existentes de transformação do lixo? Quais as respostas que a cidade pode dar aos sonhos de conquista da cidadania plena daqueles que vivem dos resquícios, das sobras do nosso consumismo voraz? Essas são questões que nos últimos anos vêm ocupando o centro dos debates em torno do tema lixo e cidadania. 

É nesse contexto que o lixo vem sendo atualmente associado à cidadania, trazendo à cena pública o significado contemporâneo do conceito de reciclagem, enquanto mais do que uma ação transformadora de um objeto usado em algo novo mas, fundamentalmente, enquanto expressão da consciência socioambiental, que possibilita geração de trabalho e renda e o exercício da cidadania de setores em vulnerabilidade social, tais como os catadores de recicláveis e os carroceiros do entulho. 

Estimativas do Banco Mundial apontam que cerca de 2% da população das cidades da Ásia e da América Latina sobrevivem da catação. Trabalhando nas ruas coletando recicláveis ou em situações dramáticas de abandono como os lixões a céu aberto, submetidos a altos riscos e via de regra com rendimentos baixos, estes trabalhadores informais do lixo têm clamado por justiça social em várias partes do mundo. São Estamiras, Josés, Marias, Geraldas do Brasil afora que se juntam a tantos outros heróis de outros países na América Latina, Ásia e África. Personagens que experimentam a mais dura exclusão no seu cotidiano mas, que ao mesmo tempo, cada vez mais protagonizam histórias de resistência. 

O mesmo Ítalo Calvino nos dá pistas de utopias possíveis ao nos falar da cidade imaginária de Ândria, onde duas virtudes do caráter de seus habitantes merecem ser recordadas: “... a confiança em si mesmos e a prudência. Convictos de que cada inovação na cidade influi no desenho do céu, antes de qualquer decisão calculam os riscos e as vantagens para eles e para o resto da cidade e dos mundos”. 

Para que passemos da opulência de Leônia para a prudência ecológica de Ândria, precisamos incorporar os múltiplos olhares e as múltiplas falas dos atores da sociedade civil, do setor público e do setor privado num esforço conjugado de reflexão e ação para a concretização de novos mundos possíveis. Um mundo que torne visíveis outros tipos de cidades. Cidades, onde os princípios da solidariedade e da prudência socioambiental sejam o dínamo re-alimentador do movimento da vida. Um grupo de organizações de base e de ONGs e redes internacionais vem trabalhando num projeto global em torno do conceito de cidades inclusivas convocando a sociedade a trabalhar na concretização de um modo Leônia de viver as cidades. Projetos e ações globais do Projeto Cidades Inclusivas e histórias de resistência de cooperativas e sindicatos de catadores e catadoras no mundo, bem como de outros grupos informais podem ser encontradas no site Cidades Inclusivas.  

Faça sua parte revendo seus conceitos, repensando suas ações, contribuindo com a coleta seletiva solidária. A virada coletiva é feita da ação de cada um e de todo.
“O universo é o eco de nossas ações e nossos pensamentos” 
– Pense nisto, VIVA isto!


Estamira.

sábado, 2 de julho de 2011

Na Lata



Nova seção deste blog, o Na Lata vai trazer, mensalmente, uma entrevista ou um texto interessante - sempre inéditos - que abordem o universo das boas idéias, das melhores práticas e das pequenas e grandes soluções para as questões atuais que envolvem a relação da sociedade com o meio ambiente. Repensar, junto com vocês, será sempre a nossa proposta.

Segue abaixo a nossa segunda entrevista.


A sustentabilidade é tridimensional

Profa. Teresa na sua sala no campus da UFMG: produzida com reutilização e inclusão social.

O blog Vinavina integra uma grande rede mundial – diversa, livre, pacífica e consciente - que se dedica a refletir e a divulgar as pequenas e grandes iniciativas socioambientais. Durante o mês de junho – em que celebramos o dia 5 como o Dia Mundial do Meio Ambiente inúmeros eventos em todo o planeta estão voltados justamente para refletir, divulgar, denunciar, promover, avançar e celebrar a relação do homem com a natureza e com o ambiente em que vive. Assim, para encerrar o mês de junho, entrevistamos a Profa. Doutora Maria Teresa Paulino Aguilar, Professora Associada da UFMG e coordenadora do Grupo NOC (Novos Olhares sobre a Construção e o Cidadão).  O tema escolhido por ela reúne todas as difíceis questões que, hoje, envolvem o indivíduo, a sociedade e a natureza. Vamos falar e refletir sobre sustentabilidade.

Instalações feitas de resíduos que projetam imagens surpreendentes.
Criadas por Tim Noble e Sue Webster.

O cuidado com o meio ambiente reflete a forma como as pessoas se relacionam com o lixo, com os vários tipos de resíduos produzidos e descartados diariamente. Como você percebe a relação atual do ser humano com o lixo?
Profa. Teresa Aguilar: O ser humano tem um repúdio natural em relação ao lixo e aos próprios resíduos que produz. Já está introjetado nas pessoas que o lixo deve ser descartado, deve ser jogado fora. É preciso trabalhar para uma mudança desse conceito. Os resíduos também podem apresentar encantamento, podem ser transformados em materiais úteis. O lixo pode e deve ser visto e trabalhado de forma positiva. O desafio é mudar o conceito de “resíduo” para “subproduto”, com um destino útil e favorável para melhorar o ambiente em que vivemos.

E o que pode ser feito para conseguir essa mudança de conceito?
Profa. Teresa Aguilar: Considerando que tudo está relacionado, é impossível separar o ser humano do meio ambiente. Assim, como educadora, procuro provocar nos alunos um novo olhar para os resíduos, procuro despertar nos alunos de engenharia um encantamento pelos resíduos e para as inúmeras possibilidades de trabalhar considerando que fazemos partes do meio ambiente, que devemos promover, literalmente, a construção de um ambiente melhor, mais confortável e que seja ainda melhor no futuro que estamos construindo. E isso não é fácil. Para mudar um conceito é preciso estar com a cabeça mais aberta e, na área das ciências exatas, com uma visão muito focada na técnica - essa é uma tarefa ainda mais difícil. O aluno precisa ser motivado a descobrir outras maneiras de olhar o mundo e de se relacionar com o meio ambiente.

Obra de arte de Vik Muniz, feita com resíduos. Da série "Lixo".

Como seria esse processo para um novo olhar sobre o meio ambiente?
Profa. Teresa Aguilar: Precisamos mudar o nosso olhar de maneira geral. Só uma mente aberta é capaz de aceitar a mudança de um conceito. E são muitos os olhares. Tem o olhar mais consumista, tem o olhar mais social, o olhar ecológico, o olhar do ponto de vista da saúde, do ponto vista do conforto material... Não sei qual o seria o mais importante. Mas, de todos esses, o olhar mais pobre é, sem dúvida, o econômico. O caminho para qualquer mudança é a educação. Assim, de minha parte, posso orientar o aluno para olhares que privilegiem e considerem o meio ambiente. Nossa orientação inclui oferecer esses novos olhares para os resíduos, para as inúmeras possibilidades de seu aproveitamento como subproduto, para a importância de pensar a construção de um ambiente cada vez mais favorável para todos, agora e no futuro. Acredito que, nesse sentido, o nosso trabalho na Escola de Engenharia já tem surtido efeitos positivos.

Recentemente, a sua sala de trabalho, na Escola de Engenharia da UFMG, foi reformada e transformada em uma sala totalmente diferente dos padrões da escola: tudo nela foi construído com material reciclado. Como é ser diferente em um universo tão técnico, tão formal? Qual é o olhar que os alunos e demais profissionais têm para a sua nova sala e para a sua proposta?
Profa. Teresa Aguilar: Primeiramente, os alunos ficam curiosos por uma sala diferente: colorida, enfeitada e querem saber o porquê daquilo. Quando descobrem que toda a sala foi montada com resíduos, ficam encantados e querem saber mais. Alguns trazem até mimos para a sala, feitos por eles ou por familiares. A sala atende ao nosso objetivo: sensibilizar os alunos para a presença e a possibilidade de reaproveitamento dos resíduos. A sala também encanta ou desperta a curiosidade de outros professores.

Detalhes da sala. Parceria Vina e Escola de Engenharia UFMG.

Professora Teresa, o tema da sustentabilidade vem sendo debatido e cada vez mais considerado nos projetos e nas ações voltadas para garantir um futuro equilibrado na convivência da humanidade com o ambiente em que vivemos. Como você vê essa questão?
Profa. Teresa Aguilar: A sustentabilidade é uma questão de vida. É uma utopia. É quando se consegue o equilíbrio entre o social, o econômico e o ambiental. É o caminho do meio. É um processo que exige decisões individuais equilibradas. É uma nova maneira de olhar o mundo procurando acertar. Por exemplo, quando usamos o copinho de papel descartável: não precisa usar um novo copo a toda hora; você pode usar um mesmo copo o dia inteiro e, no final do dia, você o descarta. Se é um copo de louça, você tem que lavar, vai gastar água. Mas é possível lavar o copo sem gastar muita água. Se levarmos tudo com muito rigor, vamos ficar doidos. Por isso, a sustentabilidade pede bom senso.

E você acredita que as pessoas estão preparadas para entender e praticar o conceito de sustentabilidade?
Profa. Teresa Aguilar: O ser humano não gosta de mudanças, não gosta de sair da sua zona de conforto; só sai quando isso representa um ganho ou uma perda muito grande. É preciso convencer as pessoas de que suas atitudes individuais afetam as outras pessoas e interferem diretamente no mundo. Tudo está relacionado. E existem muitas maneiras de nos relacionarmos com o meio ambiente. Porém não estamos ainda devidamente preparados. Na área da construção civil, por exemplo, isso é evidente. Tivemos muitos avanços, mas as pessoas não estão preparadas para usar devidamente as tecnologias oferecidas. Já existem pessoas investindo em construções “inteligentes”, que utilizam a tecnologia para economizar energia, para captar a água da chuva... Mas do que adianta recolher a água da chuva para molhar plantas ou lavar carros em um lugar em que não chove? Por isso, eu digo que só existem duas maneiras de implantar ações transformadoras: a primeira, em curto prazo, é pela regulamentação das práticas, as leis – ambientais, sociais e econômicas - que orientam as pessoas e determinam posturas. E a outra forma, em longo prazo, é a educação. O olhar ainda é muito estreito, é preciso ampliar o campo de visão e isso só é possível com a educação. Tenho muito claro, para mim, que criar e educar uma pessoa equilibrada é uma forma de praticar a sustentabilidade. E isso é muito difícil de realizar. Agora, eu digo uma coisa: as mudanças só virão de fato quando virarem lei. A lei é capaz de promover, socialmente, uma mudança de fato. A soma da educação com a conscientização e com a regulamentação pode acelerar esse processo evolutivo de respeito ao ser humano e à natureza.

Lixão Brasília (Por Francisco Stuckert, 2007)
 
Em que momento desse processo evolutivo nós estamos agora?
Profa. Teresa Aguilar: Acredito que estamos entrando em uma nova era. Agora a preocupação tem que ser com o outro, com o mundo, com o ambiente inteiro. O homem precisa tomar consciência de que faz parte do meio natural e que vai ter que tomar decisões que vão afetar a vida das outras pessoas. O homem atual precisa voltar a se integrar com a natureza e, sem jogar fora os valores construídos, buscar um equilíbrio que inclua os outros homens e o meio em que vive. A natureza não está fora da gente. Nós fazemos parte dela. É o momento de estabelecer uma relação mais amigável com a natureza. Cada um precisa enxergar o seu papel nesse processo.

Qual é a sua sugestão? Existe uma boa receita para atuarmos nessa transformação em curso?
Profa. Teresa Aguilar: De fato, essa é uma equação dificílima. As alterações são socioculturais e exigem mudanças profundas. Não existe receita para a sustentabilidade: temos que praticar. A sustentabilidade é tridimensional. Cada decisão que tomarmos deverá ser ponderada no sentido de contemplar as três áreas: a social, a econômica e a ambiental. E seremos exigidos a tomar decisões individuais, equilibradas e permanentes, em favor dessa sustentabilidade.  Se conseguirmos convencer as pessoas que têm filhos e netos de que elas têm que se preocupar agora com o ambiente a ser preservado para o futuro, poderemos mostrar que esta é uma preocupação de amor pelo próximo. Pois a herança que vamos deixar é a de um ambiente que deve favorecer a vida. O meio ambiente afeta a nossa maneira de agir. Ele é tudo, inclusive você. Assim, é preciso cuidar de você, cuidar das suas relações pessoais e, depois, cuidar do ambiente à sua volta. 



Maria Teresa Paulino Aguilar
Graduada em Engenharia com doutorado em Engenharia Metalúrgica e de Minas pela Universidade Federal de Minas Gerais. É Professora Associada da Universidade Federal de Minas Gerais. Tem trabalhos de pesquisa e extensão em Estrutura e Comportamento Mecânico dos Materiais Cimentícios e Metálicos, e Sustentabilidade das Edificações. Coordena o Grupo NOC (Novos Olhares sobre a Construção e o Cidadão).

Entrevista realizada em 9.6.2011
por Élida Murta.



 
Não deixe de conferir as boas dicas do INdica.
Sugestões da Profa. Teresa e de Élida Murta. 




“Grandes realizações são possíveis quando se dá atenção aos pequenos começos.”
(Lao-Tsé, Século VII a.C.)