quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A história dos Catadores


De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico realizada pelo IBGE em 2000, coleta-se no Brasil diariamente 125,281 mil toneladas de resíduos domiciliares, e 52,8% dos municípios Brasileiros dispõem seus resíduos em lixões.

Hoje estima-se que 1 em cada 1000 brasileiros é catador. E 3 em cada 10 catadores gostariam de continuar na cadeia produtiva da reciclagem, mesmo que tivessem uma alternativa. 


O Catador tira do lixo o seu sustento. Seja coletando materiais recicláveis pelas ruas e lixões, na coleta seletiva, ou através de parcerias. 


Pioneiros da Coleta Seletiva

A prática da reutilização é antiga no País e em Belo Horizonte (MG). Anterior à popularização da reciclagem, só passou a fazer parte das ações de recuperação ambiental do planeta na década de 90. Os catadores de papel, que já nos anos 50 eram vistos pela capital mineira, recolhendo ‘lixo de valor’, são, portanto, os precursores da coleta seletiva na cidade. 


Os catadores, até o fim da década de 80, trabalhavam exclusivamente para os donos dos depósitos que, ainda hoje, são intermediários de grande parte da venda do material reciclável às indústrias. É a partir de 1993 que o poder público dá um salto qualitativo, ao reconhecer, publicamente, a importância do trabalho do catador, tanto como agente ambiental, como, também, pela economia que esses trabalhadores geram para a prefeitura, que deixa de coletar, transportar e dar destinação final ao material coletado por esse setor informal.

Nessa ocasião, com relação à parceria com a ASMARE, a prefeitura apoiava o seu funcionamento, não só pela doação dos recicláveis, mas, principalmente, pelo repasse de recursos para pagamento de despesas administrativas, fretes, vales-transporte e fornecimento de uniformes aos catadores.


Movimento Nacional dos Catadores de 
Materiais Recicláveis 


O Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) é um movimento social que há cerca de 12 anos vem organizando os catadores e catadoras de materiais recicláveis pelo Brasil afora. Busca a valorização da categoria de catador, que é um trabalhador como outro qualquer e tem sua importância.

O principal objetivo é garantir o protagonismo popular da classe, que é oprimida pelas estruturas do sistema social. O MNCR acredita na prática da ação direta popular, que é a participação efetiva do trabalhador em tudo que envolve sua vida, algo que rompe com a indiferença do povo e abre caminho para a transformação da sociedade.


Tração Humana

Na maioria das vezes os catadores e catadoras passam despercebidos nos lixões, nos galpões e nas ruas. Catam, transportam e vendem o lixo. Catam como? Como transportam? E como comercializam? Qual a diferença da situação atual e a de 20 anos atrás? 


Hoje os catadores possuem uma organização, um movimento nacional, lideranças que dialogam diretamente com o Governo, mas continuam em sua grande maioria como antes, sem as condições mínimas adequadas para o trabalho que executam. No Brasil, os catadores, muitos deles filhos de catadores, no sol, na chuva e em ruas movimentadas transportam seus carrinhos de mão, ou puxam sacos repletos de materiais recicláveis, usando sua força física com a tração humana. Com esse trabalho precário, contribuíram para transformar o Brasil no campeão mundial em reciclagem de alumínio.

É preciso acreditar na cidadania do catador, do cidadão, e na gestão pública de qualidade. Devem ser oferecidas aos catadores opções dignas de trabalho e renda compatível com a nobre, antiga e moderna tarefa que executam e que tantos benefícios traz para o País.






Não deixe de visitar: 
Exposição temporária: Seu Lixandre – Narrativas de Catação
Onde: no segundo andar do Espaço do Conhecimento UFMG, localizado na Praça da Liberdade, s/n
Quando: De terça a domingo - 10h às 17h / Às quintas-feiras - 10h às 21h
Entrada gratuita
www.espacodoconhecimento.org.br


Para ler e se informar
Essa postagem foi baseada nos artigos e informações abaixo:

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Descartando o consumo!

Atualmente, a humanidade consome mais recursos renováveis do que a Terra consegue regenerar. Apenas 16% da população mundial é responsável por 78% do total do consumo no planeta e essas mesmas pessoas são também responsáveis pelo descarte dos resíduos daquilo que consomem. 

É urgente que o nosso consumo se torne mais consciente e que o modelo de produção seja mais sustentável. Quanto maior a vida útil de um produto, menor será a necessidade de descartá-lo. Se a  reutilização ou o conserto não forem opções possíveis, a reciclagem dos resíduos é o caminho. 

Assim, será possível alcançar o bem-estar desejado pela sociedade com um uso muito menor de recursos naturais do que o atual por meio de, ao mesmo tempo, uma produção mais responsável e um consumo mais consciente.




No Brasil, cada habitante gera em média 1,1 kg de resíduos por dia. 
O que fazer com eles? 

A coleta seletiva surgiu como uma possibilidade para a destinação dos materiais que podem ser reciclados. Esse processo consiste na separação e no recolhimento dos resíduos descartados, que são destinados à reciclagem, que é a utilização, como matéria-prima, de um produto que seria considerado lixo.

É ei. Desde 2011, está em vigor a norma da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). A Lei nº 12 305, que tramitou no Congresso por 21 anos, determina que todos os municípios do Brasil devem fazer a separação do lixo corretamente, através da coleta seletiva. O objetivo é dar um destino correto para os mais de 57 milhões de toneladas de lixo que o Brasil produz por ano, segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Desse total, apenas 2,4% dos resíduos sólidos são reciclados.




Belo Horizonte (MG) descarta por volta de 3.500 toneladas de lixo diariamente. A coleta seletiva na cidade existe desde 1993 e ocorre em duas modalidades: ponto a ponto, em que a pessoa deve destinar seu lixo reciclável a contêineres específicos disponíveis na cidade; e porta a porta, em que o caminhão da Prefeitura recolhe os recicláveis na porta da casa de cada um. O programa BH Recicla, lançado em 2007, é uma expansão do serviço de coleta seletiva. 

Coleta Seletiva Porta a Porta
Neste tipo de coleta, os materiais recicláveis são separados pelos moradores, colocados no passeio para serem coletados por um caminhão baú. Atualmente, a coleta porta a porta está presente em apenas 30 bairros de Belo Horizonte, que possui, no total, 284 bairros. É muito pouco!
Para ter o seu lixo recolhido, basta separar os materiais recicláveis (papel, metal, plástico e vidro), higienizá-los e colocá-los no mesmo saco plástico, no passeio, às 8h, no dia definido para a coleta seletiva da sua rua. Confira aqui os bairros atendidos. 


Coleta seletiva ponto a ponto
Nesse tipo de coleta, são instalados contêineres nas cores padrão definidas pela Resolução do Conama para os materiais recicláveis: azul para o papel, vermelho para o plástico, amarelo para o metal e verde para o vidro. A população separa os recicláveis em sua residência ou local de trabalho e os deposita nos contêineres instalados pela Prefeitura. Cada endereço é chamado de Local de Entrega Voluntária (LEV). Confira aqui os endereços dos LEVs.




Como você pode ajudar

• Não jogue lixo ou entulho nas vias públicas, córregos, lotes vagos, bueiros e encostas. Além de poluir a cidade, o lixo nas ruas entope bocas de lobo e pode provocar enchentes.

• Embale corretamente seu lixo, em sacolas resistentes, bem fechadas e de tamanho adequado, para evitar que elas se abram e espalhem o lixo nas vias públicas. Lixo não embalado, além de exalar mau cheiro, atrai animais que podem ser portadores de doenças.

• Proteja o vidro e outros materiais pérfuro-cortantes (estiletes, pregos, lâminas) com material resistente antes de colocá-lo na sacola e pressione as tampas das latas para dentro. Esses materiais desprotegidos podem ferir os garis e os catadores, mesmo que eles estejam usando as luvas protetoras.

• Agulhas de seringas não devem ser jogadas no lixo, entregue-as em um posto de saúde devidamente acondicionadas.

• No trânsito, respeite os cones de sinalização. Eles estão ali para proteger os varredores, que estão trabalhando para deixar a cidade mais limpa para todos nós.

• Zele pela conservação dos cestos coletores e dos contêineres de coleta seletiva. A depredação é prejudicial a todos.

• Respeite os dias e horários de exposição do lixo para coleta, evite deixar seu lixo na rua por mais tempo que o necessário.

• Também não devem ser jogados no lixo domiciliar resíduos como pilhas, baterias, lâmpadas, pneus, etc. Esses materiais constituem os chamados Resíduos Especiais, e devem ter destinação especial. Pilhas e baterias, por exemplo, devem ser encaminhadas aos fabricantes, que são responsáveis pela sua destinação correta. Veja aqui mais detalhes sobre esse tipo de descarte.

• Não queime o lixo. Essa prática é proibida.

• É dever do proprietário do imóvel preservar e manter limpa a calçada em frente ao seu estabelecimento ou residência.

• Quem produz entulho de construção civil deve dar a destinação adequada para eles. O caminhão da SLU não recolhe entulho.

• Restos de poda, entulho e móveis velhos não são recolhidos pelo caminhão. Leve-os para uma Unidade de Recebimento de Pequenos Volumes (URPV). Consulte aqui a mais próxima de sua casa.

• Lugar de lixo é no lixo. Use as lixeiras. Não jogue lixo no chão.

• O caminhão da coleta seletiva recolhe só o material reciclável. O lixo comum não é recolhido por ele. Portanto, não misture os materiais recicláveis com o lixo comum.



SE-PA-RA-DO
Tudo fica novo, de novo!


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Comida: você tem desperdiçado?


Você sabia que o Brasil é o 4º maior produtor de alimentos, mas desperdiça 20% do que produz? Sabia que 19 milhões de pessoas poderiam ser alimentadas por esses 20%? O vídeo abaixo foi criado em 2012, pela equipe da EcoBenefícios, com o objetivo de conscientizar a população brasileira sobre o desperdício. Assista e saiba mais! 



Dia Mundial da Alimentação
Comemorado todos os anos no dia 16 de outubro, data da fundação da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Dia Mundial da Alimentação tem como objetivo chamar atenção para as questões relacionadas com a produção de alimentos, assim como ampliar a consciência social sobre o problema da fome no mundo. Em 2013, o foco é a importância dos sistemas alimentares e a sustentabilidade para garantir segurança alimentar e nutricional.

Pessoas saudáveis dependem de sistemas alimentares saudáveis. E um sistema alimentar é constituído por pessoas, instituições, o meio ambiente e processos pelos quais os produtos agrícolas são produzidos, processados e entregues aos consumidores. Tudo isso tem um enorme impacto no meio ambiente e na saúde das pessoas. E é essa a discussão proposta este ano pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) como tema para o Dia Mundial da Alimentação.

Artista austríaco Friedensreich Hundertwasser (1928-2000) usou cores vivas e formas orgânicas para expressar a reconciliação dos seres humanos com a natureza, noções que ecoam o tema do Dia Mundial da Alimentação deste ano.

Uma das questão mais discutidas é o desperdício alimentar, principal razão para que 842 milhões de pessoas continuem privadas de quantidades suficientes de alimentos. Para marcar a data, na sede da FAO, em Roma, foi oferecido um almoço totalmente feito com produtos que iriam para o lixo.

Cerca de 1/3 dos alimentos produzidos em todo o mundo - ou 1,3 bilhão de toneladas e mais de US$ 750 bilhões - por ano são atualmente desperdiçados, de acordo com dados da FAO.



Aproveitamento Integral dos Alimentos
Uma boa cozinha é aquela na qual nada é desperdiçado. Às vezes não percebemos, mas na nossa cozinha há muita coisa indo para o lixo sem necessidade. Grande parte dos alimentos pode e deve ser aproveitada para o preparo de várias receitas.

O Departamento Socioambiental da Vina, em uma das suas ações voltadas para a inclusão social e educação socioambiental, desenvolveu um Caderninho de Receitas para incentivar e divulgar o aproveitamento integral dos alimentos. Não deixe de conferir! 





Além de tornar a alimentação de toda a família mais saudável com um cardápio colorido e variado, você também estará economizando e ajudando a reduzir a fome e o lixo do planeta!


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Seu Lixandre - Narrativas da Catação




No dia 15 de outubro, foi inaugurada no Espaço do Conhecimento UFMG a exposição temporária "Seu Lixandre – Narrativas de Catação". Fruto de uma parceria com a ASMARE (Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Material Reaproveitável), a mostra aborda a trajetória dos catadores, suas visões de mundo, desafios e conquistas, apresentados a partir de suas próprias narrativas.

Por meio de recursos audiovisuais e objetos de trabalho típicos das rotinas de coleta e seleção dos materiais recicláveis, a exposição convida a repensar a inserção dos catadores na dinâmica da cidade, trazendo suas perspectivas para o primeiro plano.
  

 Clique nas imagens para ampliar. 

A história
O contato com a Asmare começou no início de 2013, quando o núcleo educativo do Espaço do Conhecimento iniciou uma série de encontros para discutir o tema da coleta seletiva, trabalhado no andar águas da Exposição Demasiado Humano. “O diálogo com os catadores gerou reflexões importantes sobre suas trajetórias de vida, seus percursos na cidade, e como tudo isso se relaciona com as transformações do reconhecimento do ofício pela população” explica Verona Segantini, coordenadora do núcleo de expografia do Espaço do Conhecimento e uma das responsáveis pela organização da mostra. 

Os relatos, documentos históricos, vídeos e materiais apresentam os catadores como protagonistas, sujeitos da ação, discutindo as condições de trabalho às quais são submetidos, a invisibilidade social, a marginalização da função, bem como a importância da gestão de resíduos para a vida cotidiana.



Presente do Seu Lixandre

“Quando veio do lixo que você separou, é a cultura das pessoas que veio do lixo, 
então eu dei um nome: foi presente do Seu Lixandre”. 
(Dona Geralda)


O nome da mostra faz referência a um termo criado por Maria das Graças Marçal, a “Dona Geralda”. Ela trabalha com a coleta de materiais recicláveis desde os oito anos de idade e é uma das fundadoras e atual presidente da Asmare. “Seu Lixandre” é a forma carinhosa e personificada como ela refere-se ao resíduo. “É muito interessante este elemento vivo em que se transformou o Seu Lixandre. Para eles, o resíduo não é apenas trabalho, é como se fosse um amigo”, conta Maurício Melo, coordenador do Núcleo de Arte da Asmare.

Ele fala da importância da criação da Asmare na história dos catadores. “O surgimento da associação trouxe identidade para essas pessoas, que antes eram vistas como ameaças, e hoje, mesmo com os preconceitos existentes, são vistas como trabalhadores. Além da organização política, o maior benefício é a cidade passar a entender a importância da função desempenhada pelos catadores”, diz.

Ainda há muito a ser conquistado. Maurício ressalta a importância de provocar a reflexão sobre os preconceitos que envolvem o trabalho dos catadores, e, principalmente, sobre a invisibilidade social do grupo, em vários aspectos: “Muitos os veem como mendigos, meros incômodos no trânsito. Não existem sequer ferramentas desenvolvidas para este trabalho. Observe que eles utilizam o mesmo carrinho há anos, um veículo movido à tração humana, em pleno século XXI, e isso realmente choca”, conclui, refletindo sobre os diversos desafios que precisam ser superados pelos catadores.





Exposição temporária:
Seu Lixandre – Narrativas de Catação

Onde: no segundo andar do Espaço do Conhecimento UFMG, localizado na Praça da Liberdade, s/n
Quando: De terça a domingo - 10h às 17h / Às quintas-feiras - 10h às 21h
Entrada gratuita
Imprensa: (31)3409 8366 ou imprensa@espacodoconhecimento.org.br





segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Caiu na rede é... texto!




Mais uma novidade neste blogPesca-texto é um novo espaço para as boas novas, para as boas palavras de liberdade e esperança, para as reflexões leves e também para as que sejam mobilizadoras, enfim, um espaço para os melhores textos que possam ser pescados, aqui e ali, nas boas ondas que estão fazendo o mundo girar agora e que refletem ações e transformações em curso. 

Esta nova seção vai priorizar um tipo de assunto: a troca de ideias sempre positivas. Ainda que pareça que o vento virou e que “o mar não está pra peixe”, vamos seguir olhando para o horizonte e acreditando que é possível transformar e melhorar o mundo – muito e sempre.

Assim, daqui pra frente, texto bom pescado é texto compartilhado!
Para acessar a página e ler os textos, clique na imagem abaixo.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Bora pedalar?




O Dia Mundial Sem Carro é um movimento que começou em algumas cidades da Europa nos últimos anos do século 20, e, desde então, vem se espalhando pelo mundo, ganhando mais adesões a cada edição. Trata-se de um manifesto/reflexão sobre os problemas causados pelo uso intenso de automóveis como forma de deslocamento e de um convite ao uso de meios de transporte sustentáveis - entre os quais se destaca a bicicleta.

Belo Horizonte (MG) tem aderido de forma tímida, mas crescente, a cada ano, ao Dia Mundial Sem Carro, com campanhas e fechamento de ruas para uso exclusivo de pedestres. Em 2005, foi realizada a primeira pedalada promovida pelo Mountain Bike BH. Em 2006, o pedal-manifesto se repetiu, desta vez fazendo parte da programação oficial da data, e contou com cerca de 170 ciclistas. Desde então, o número de adeptos vem aumentando a cada edição.

O Mountain Bike BH é um grupo formado por ciclistas amadores, de idades e profissões variadas e de ambos os sexos, unidos pela paixão pela bicicleta, pela natureza, pela solidariedade e por superar desafios. Saiba mais aqui. 


O que rolou em Belo Horizonte:


Sesc promove passeio ciclístico em diversas cidades do estado, com música, diversão e sorteios
Durante o mês de setembro, o Sesc realiza a primeira edição do Ciclo Sesc - Viver mais a Cidade, em Minas Gerais. A participação é gratuita e destinada a ciclistas de todas as idades. O objetivo do evento é fortalecer a imagem do ciclismo como uma prática de lazer associada à atividade física, à saúde, à qualidade de vida e a incentivar o uso da bicicleta como meio de transporte. O Ciclo Sesc ocorre em 16 municípios do Estado de Minas Gerais. Confira mais informações aqui

E o resultado das pedaladas em BH, você pode ver aqui. 



Pedal DMSC (Dia Mundial Sem Carro
Desde 2005, Belo Horizonte conta com o Pedal do DMSC. Sempre realizado no dia 22 de setembro, o trajeto é feito dentro dos limites da Avenida do Contorno. Esse é o evento máximo do DMSC. São bem-vindos ciclistas, patinadores, skatistas e todos os modos não motorizados. 
Confira as fotos divulgadas no evento do facebook aqui (faça o login para visualizar)! 



O projeto Tarifa Zero é Mais tem como objetivo melhorar a situação dos transporte público de Belo Horizonte. Há um projeto de lei que foi inserido na Lei Orgânica do Município de Belo Horizonte que institui a gratuidade dos serviços de transporte público no município.

Nos dias 21 e 22 de setembro, a campanha para a aprovação da lei esteve nas ruas da capital mineira e contou com a participação de muita gente! Para que o projeto seja aprovado na Câmara Municipal de Belo Horizonte, será necessária a coleta de 95 mil assinaturas.

Confira abaixo mais informações sobre o projeto:
Site oficial :: http://tarifazerobh.org/wordpress/
Facebook :: https://www.facebook.com/tarifazerobh
Fotos :: http://www.flickr.com/photos/dq-pb/sets/72157635798065114/
Vídeo :: Informativo e esclarecedor. Não deixe de ver!





10 razões para levar a sério o Dia Mundial Sem Carro

Todo ano, no dia 22 de setembro celebra-se o Dia Mundial sem Carro. Confira aqui dez boas razões para respeitar e aderir ao movimento, seja de bicicleta, a pé ou de metrô!






Você sabia? 
A maioria dos usuários de automóvel em São Paulo diz que trocaria carro por transporte de qualidade! 
Uma pesquisa, divulgada pela Rede Nossa São Paulo e Ibope, revela também que 93% dos paulistanos são favoráveis à ampliação das faixas exclusivas de ônibus e 69% acham a situação do trânsito ruim ou péssima. 




Dê uma chance pra magrela! 





Vamos nos inspirar com a chegada da primavera! É tempo de renovar energias, de repensar atitudes e de rever conceitos!






terça-feira, 10 de setembro de 2013

Na Lata


Na Lata é um espaço reservado, neste blog, para entrevistas e textos contemporâneos que abordem o universo das boas ideias, das melhores práticas e das pequenas e grandes questões que envolvem as relações da sociedade com o meio ambiente, com a cultura, com a política e com todos os movimentos capazes de transformar positivamente o mundo em que vivemos. 

Repensar, junto com vocês, será sempre a nossa proposta.

Para este novo post escolhemos um tema de grande importância para a atual realidade social e política brasileira: a Reforma Política.
O texto Os protestos de junho, a corrupção e a reforma política, do professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG Newton Bignotto - que gentilmente aceitou o nosso convite - nos oferece uma reflexão sobre a relação entre a Reforma Política e a corrupção no Brasil contemporâneo. 




Os protestos de junho, a corrupção e a reforma política
Newton Bignotto

  As grandes manifestações ocorridas em várias partes do Brasil no mês de junho pegaram de surpresa uma boa parte da população e dos analistas da política nacional. Originadas no movimento de luta pelo passe livre, em São Paulo, elas se alastraram rapidamente por várias capitais, atingindo proporções gigantescas em alguns locais. Desde então, multiplicaram-se as análises do fenômeno na tentativa de entender o que estava acontecendo e qual rumo as coisas tomariam. Na França, o jornal Libération chegou a perguntar se se tratava de uma revolução e se estaria acontecendo no Brasil algo semelhante ao que ocorrera, por exemplo, em países como a Tunísia e o Egito, na denominada “primavera árabe”. A manchete denotava desconhecimento da realidade política brasileira, em nada comparável àquela dos países mencionados, mas chamava a atenção para o fato de que algo parecia estar mudando na política brasileira e que essa mudança começara pelas ruas.
  Quase tão intensa quanto os protestos foi a batalha por sua interpretação. Mesmo sem entender necessariamente os que estava ocorrendo, grupos políticos das mais variadas tendências procuraram não apenas compreender o acontecido mas se apropriar de seu significado aproximando-o de suas bandeiras históricas ou inventando uma nova bandeira. A análise de acontecimentos políticos, sobretudo daqueles de grande intensidade, quando realizada muito próxima deles, identifica-se muito mais com o terreno da opinião do que com aquele do saber. Não há nada de errado com isso, é mesmo algo natural, que constitui e sinaliza a existência de uma esfera pública viva e desejosa de mudanças. O que devemos observar, no entanto, é que as interpretações “a quente” de fenômenos  políticos terminam por fazer parte do fenômeno elas mesmas, interferem em seu curso e, muitas vezes, têm baixo poder de explicação. 
  Alguns já começaram a chamar as manifestações ocorridas no Brasil de “jornadas de junho” numa alusão a grandes acontecimentos da história ocidental. A editora Boitempo, por exemplo, acaba de lançar um livro, Cidades rebeldes, que reúne uma série de artigos, nos quais aspectos variados são abordados por autores que, em sua maioria, partiram da ideia de que a variedade das reivindicações, e a multiplicidade dos atores presentes na cena pública, tornam difíceis as interpretações, embora muitos dos que escreveram tendem a enxergar um momento inovador da política brasileira, capaz de fazê-la se abrir para pautas que até então eram exclusivas de grupos militantes e mobilizados. 
  Sem descurar da importância das análises apresentadas, acreditamos que ainda é cedo para propor uma interpretação de conjunto das manifestações e mesmo de prever qual impacto terão na cena política brasileira. Isso ocorre não apenas pelo motivo levantado acima, mas, também, porque as reivindicações e os grupos envolvidos foram tão múltiplos e diferenciados, que é difícil encontrar uma síntese capaz de indicar a direção que será seguida pela política brasileira nos próximos meses. 
  Na verdadeira cacofonia das reivindicações que tomaram as ruas é possível, no entanto, identificar questões e temas que vieram para ficar, exatamente porque sua expressão nas ruas vinha acompanhada por uma longa maturação em fóruns menores, mas já organizados antes dos acontecimentos. A pauta mais evidente e talvez a mais aguda é sem dúvida aquela dos transportes públicos e de sua precariedade. Temas ligados à saúde e à educação também ganharam destaque, mesmo se muitas vezes guiados por corporações mais interessadas em seus benefícios do que no bem estar da população em geral. 
  Outro conjunto de temas estabelece a ponte entre a corrupção e a necessidade de uma reforma política para combatê-la. Esses são dois tópicos antigos do debate nacional, mas estão longe de ter produzido ações compatíveis com sua importância e com sua urgência. Em particular, eles parecem capazes de galvanizar os debates eleitorais, mas não de modificar o comportamento dos atores políticos institucionais. Assim, sem pretender hierarquizar as demandas e os temas debatidos, acreditamos que uma das heranças imediatas dos protestos de junho é o fato de que eles escancararam a necessidade de pensar de forma aprofundada as questões que nos angustiam. Essa urgência advém não apenas do fato de que os problemas são reais e importantes, mas porque abandoná-los para os que pensam em se servir deles para fins particulares pode produzir efeitos contrários aos que emergiram na cena pública brasileira. Pensar a corrupção como uma questão exclusivamente moral serve para ocultar seus mecanismos e para esvaziar sua dimensão política. Pensar a reforma política do ponto de vista dos mecanismos eleitorais serve para esconder o profundo mal-estar que domina parcelas da população quando se referem à maneira como a vida política brasileira é conduzida. Mais modestamente, portanto, acreditamos que ainda é cedo para as interpretações de conjunto do ocorrido, mas está no momento de aprofundar as reflexões e deixar de lado o terreno escorregadio das opiniões, para colocar em questão teorias e conceitos que até hoje balizaram os debates sobre temas que de forma mais ou menos intensa explodiram na cena pública brasileira. Essa tarefa longe de ser apenas o apanágio dos especialistas concerne o conjunto dos que se interessam pela vida política brasileira e desejam transformá-la. Enraizar os problemas na longa duração pode ser uma estratégia para abordá-los de maneira fecunda, reconhecendo ao mesmo tempo sua urgência e sua perenidade na vida política brasileira. A seguir apresentamos algumas reflexões sobre o problema da corrupção que foram feitas há alguns anos, quando o tema da reforma política estava em alta em nosso País. Acreditamos que elas guardam, ainda, sua pertinência exatamente porque pouca coisa mudou desde então. 




Corrupção e  Estado de direito
Newton Bignotto

Texto originalmente publicado em: AVRITZER, Leonardo; ANASTASIA, Fátima: Reforma Política no Brasil. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2006. 
  Quando se discute reforma política no Brasil, um dos obstáculos mais citados para o pleno desenvolvimento da vida democrática no país é a corrupção frequente dos agentes do Estado e os prejuízos causados pelo que muitos acreditam ser um fato generalizado na vida pública. Essa percepção do senso comum acompanha a maneira como alguns cientistas políticos definem o fenômeno da corrupção nas sociedades contemporâneas. Gianfranco Pasquino, no conhecido Dicionário de Política, editado, dentre outros, por Norberto Bobbio, afirma que corrupção “designa o fenômeno pelo qual um funcionário público é levado a agir de modo diverso dos padrões normativos do sistema, favorecendo interesses particulares em troco de recompensa. Corrupto é, portanto, o comportamento ilegal de quem desempenha um papel na estrutura estatal”. Ao colocar assim o problema, o autor restringe seu alcance aos atores diretamente relacionados com a ação governamental e sugere que a corrupção é primariamente um ato ilegal, perpetrado por aqueles que deveriam zelar pelo bom funcionamento do aparelho estatal, notadamente os funcionários. O âmbito de ação dos corruptos é, pois, essencialmente o Estado. 
  A abordagem da questão tal apresentada mostra que o principal remédio para a corrupção deve ser de natureza legal, uma vez que ela é antes de tudo um ato de ilegalidade. Isso sugere que uma reforma política deveria se concentrar na modificação da legislação vigente, visando adequá-la ao caráter generalizado que o fenômeno parecer ter adquirido na sociedade brasileira. Ocorre que, se estudarmos o problema desse ponto de vista, será mister reconhecer que o aparato legal brasileiro, como o de muitas nações democráticas - está longe de ser omisso em relação aos funcionários que transgridem a lei. O código de conduta do funcionalismo, assim como a legislação brasileira em suas várias formas, prevê uma série de punições, que são aplicadas com maior ou menor sucesso pelas corregedorias públicas, assim como pela justiça comum. A reforma da legislação certamente pode torná-la mais eficiente diante dos muitos desmandos que dominam nossa vida pública. 
  O que se deve perguntar, entretanto, é se a análise por esse viés abarca todos os aspectos do problema, mesmo na forma como é percebido pelo senso comum. O mal-estar que domina muitos setores da sociedade brasileira, quando confrontados com a pergunta sobre o funcionamento do Estado, não parece se esgotar na queixa contra a ineficiência dos mecanismos legais em punir os transgressores. A corrupção é tida como um problema para a sociedade brasileira, em grande medida, porque é percebida como parte de nossa vida política em toda sua extensão e não apenas em uma de suas dimensões. Quando se fala da corrupção dos políticos, o fenômeno ganha uma amplitude que não está prevista na análise de muitos cientistas sociais. A restrição da questão, no entanto, como aquela operada por Pasquino, tem o mérito de apontar para soluções possíveis pelo uso de mecanismos tradicionais de controle das atividades do Estado, que se torna muito mais difícil quando tomamos a corrupção em sua acepção mais larga, que afeta a relação dos cidadãos de um Estado com a vida política em geral e não apenas com uma de suas instâncias mais facilmente identificáveis. No caso brasileiro, parece-nos, entretanto, que o conceito alargado de corrupção está mais próximo das preocupações dos cidadãos comuns do que a abordagem restritiva proposta por alguns cientistas sociais. 
  Historicamente o problema da corrupção faz parte do vocabulário da filosofia política desde a antiguidade. Platão abordou a questão no oitavo livro da República. Para o pensador grego, cada regime político corresponde a um tipo de homem. Assim, numa aristocracia, um determinado grupo social restrito ocupa o poder e governa segundo seus interesses e valores. Quando os filhos dos aristocratas perdem a capacidade  de reproduzir o comportamento de seus pais, o regime se corrompe e se transforma em outra forma de governo. O importante nessa mudança de regime é que ela é inevitável aos olhos do filósofo e se tornava inexorável com o passar do tempo. 
  A herança platônica foi recebida por Aristóteles - que a ela dedicou páginas luminosas no quinto livro de sua Política – e, depois, foi popularizada pelo historiador grego Políbio, que viveu no segundo século de nossa era. Ele afirmava que os regimes mudavam segundo uma ordem pré-determinada e sempre num mesmo sentido. Dos melhores regimes passa-se para os piores até que é preciso regenerar inteiramente o corpo político. Para resistir a essas mudanças, é necessário misturar na constituição do regime elementos oriundos das três formas não degeneradas de governo: a realeza, a aristocracia e a democracia. Com isso pretende-se evitar que a simples passagem do tempo destrua o corpo político sem que os homens possam fazer algo para detê-la. No entanto, mesmo num regime misto, a corrupção é um fato inexorável, que pode ser retardado, mas não evitado para sempre. Para os antigos havia, portanto, uma relação direta entre o comportamento dos homens e a corrupção do corpo político, mas ela dizia respeito à essência dos regimes. O que se corrompia eram as formas políticas, mas a origem do processo estava nos homens,  nos costumes degradados e na violação frequente da lei. Durante o Renascimento, os humanistas italianos, Maquiavel em particular, retomaram o problema e o estudo da corrupção, insistindo sobre o fato de que se os homens fracassam em defender os valores republicanos, a corrupção ganha terreno e destrói o corpo político.  
  Na modernidade Montesquieu abordou, no oitavo livro de seu Do espírito das leis,  o tema da corrupção de uma maneira que lembra a dos antigos. Para ele : "A corrupção de cada governo começa quase sempre pela dos princípios". Mas o que é um princípio? Para o pensador, princípio é o que faz um regime político agir, a seta que guia os homens em suas ações, quando devem fazer escolhas na cena pública. Numa república o princípio é sempre a virtude. Isso não significa dizer que num regime republicano – que para ele engloba as democracias - os homens ajam virtuosamente ou sejam sempre virtuosos. Montesquieu, no livro quarto do Do espírito das leis, afirma que: “Podemos definir esta virtude como o amor pelas leis e pela pátria. Este amor. Exigindo sempre a supremacia do interesse público sobre o interesse particular, produz todas as virtudes individuais; elas nada mais são do que esta supremacia”. Ao se corromper o princípio de uma república o que se constata é que os homens deixam de agir por amor à pátria, ou param  de defender os interesses públicos acima de tudo, e passam a se guiar por outros ideais, que tanto podem ser os desejos individuais quanto a honra  que move as monarquias. 
  No século XIX, essa maneira de abordar o problema da corrupção deixou de ser considerada e foi aos poucos perdendo terreno para análises mais próximas daquelas que dominam hoje as ciências sociais. Que sentido tem, então, recorrer ao passado? Certamente não podemos mais nos referir à corrupção como a um fenômeno natural, nem mesmo esperar da mistura de diversos modelos de governo a solução para as graves questões suscitadas pela corrupção dos agentes do Estado. O que cabe é reter a ideia de que ao se corromper o corpo político perde sua identidade e deixa de oferecer a seus membros a proteção de suas leis. Para manter viva essa herança devemos, pois, ver de que maneira a modernidade alterou nossa forma de pensar a natureza dos corpos políticos e sua forma de funcionar.  
  O primeiro passo para efetuar o vínculo entre a tradição e a modernidade é reconhecer que a identidade das nações contemporâneas é garantida por sua constituição –conjunto de leis fundamentais, que não pode ser modificado pelos governantes particulares - e não mais por princípios abstratos ou transcendentes. Embora possamos pensar a constituição de diversas maneiras, o que reúne as diversas concepções é a ideia de que os Estados modernos são estruturados em torno de leis fundamentais, que garantem seu funcionamento e limitam os poderes dos governantes. Tanto para aqueles que, como Rousseau ou Hegel, enxergam na constituição um organismo jurídico, que confere unidade ao Estado, quanto para os que, como Locke e Rawls, veem no aparato legal constitucional uma maneira de garantir os direitos individuais pela limitação dos poderes, a afirmação da identidade do Estado moderno por sua constituição parte do princípio da superioridade das leis sobre as vontades individuais. Nesse sentido, ao criar o mecanismo constitucional, seja pela preservação dos costumes e leis tradicionais (Burke), seja pela expressão escrita da vontade do povo (Thomas Paine, Rousseau), os cidadãos assumem que desejam viver segundo seus princípios e que estes não poderão ser destruídos sem que o Estado também o seja. Uma das consequências dessa maneira de abordar o problema da fundação das formas políticas é que não há Estado de direito e constituição sem que aja delimitação das fronteiras entre o domínio público e o domínio privado. Da mesma forma, nessa lógica, a constituição é o marco último para decidir da legalidade ou ilegalidade de uma ação. 
  Para pensar o problema da corrupção no Brasil é importante fugir de sua interpretação corriqueira para levar em conta as relações complexas, que se estabeleceram ao longo dos anos entre órgãos estatais e grupos privados. Dentre nós, a constituição nunca chegou a ocupar o lugar que tem na vida política de nações como os Estados Unidos. Embora tenhamos uma rica história constitucional, a separação entre o público e o privado nem sempre é percebida como um fato derivado das leis fundamentais e nela refletidos. De um lado, grupos ou partidos políticos que chegam ao poder costumam desconhecer o fato de que o aparato constitucional constitui um limite intransponível para suas ações. Agindo como grupo privado, vários atores políticos se comportam como se a vitória nas eleições significasse a posse da totalidade dos poderes do Estado. A confusão entre a esfera do governo e os domínios do Estado conduzem à crença de que a soberania popular, origem das leis em uma democracia, é apenas uma referência ideal, sem correspondência na realidade. Por outro lado, o próprio Estado parece reproduzir seus quadros, como mostrou Faoro, criando um grupo dirigente, que não reconhece limites para suas práticas, além daqueles inerentes às disputas políticas.  
  Olhando para esse quadro é possível concluir que, no Brasil, se a corrupção é em grande medida o efeito do comportamento ilegal de funcionários públicos, ela é um fenômeno que atinge setores muito mais amplos de nossa sociedade e ameaça romper o equilíbrio constitucional, atentando contra alguns de seus princípios fundamentais. Atacar o problema de frente implica retomar o debate sobre as definições entre o público e o privado e pensar numa reforma da legislação que contemple o conjunto das forças políticas e não apenas os agentes do Estado. Essa ampliação dos horizontes da análise ajuda a ver que a corrupção é um risco para os fundamentos da democracia. Ao preferir os interesses privados aos interesses públicos, mais do que transgredir a lei, atinge-se o núcleo mesmo do Estado: sua constituição. Uma reforma da legislação terá pois necessariamente que levar em conta a ameaça representada pelos corruptos e o fato de que a corrupção diz respeito à maneira como a sociedade como um todo lida com a coisa pública. O Estado de direito não sobrevive sem que todos os atores envolvidos no processo sejam responsabilizados e sem a afirmação da superioridade do bem público sobre o bem privado. É claro que os crimes cometidos por funcionários e cidadãos devem ser punidos segundo a legislação vigente. Mas, se quisermos levar em conta a natureza verdadeiramente política da corrupção, será preciso prestar atenção a seu nascedouro nas relações promíscuas entre os interesses de agentes particulares e as ações governamentais. Sem uma definição clara das fronteiras entre o público e o privado e a extensão da punição a todos os agentes corruptores, as diversas práticas ilegais, que caracterizam a corrupção no Brasil, serão um ameaça constante à manutenção do Estado de Direito. A ideia dos antigos de que a corrupção dos homens leva à destruição do corpo político serve, assim, como uma indicação dos riscos que corremos quando abandonamos o marco das leis fundamentais, para gerirmos a vida pública com a lógica imediata das disputas eleitorais.   

Referências bibliográficas. 
ARISTOTE. La politique. Paris: J.Vrin, 1982. 
BOBBIO, N (et al). Dicionário de Política. Brasília: EDUNB, 1992, 2 vol. 
FAORO, R. Os donos do poder. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2001
LOCKE, J. Two treatises of government. Cambridge: Cambridge University Press, 1960. 
MONTESQUIEU. Do espírito das leis. São Paulo: Ed. Abril, 1979. 
PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
RAWLS, J. A Theory of justice. Oxford: Oxford University Press, 1973. 
ROUSSEAU, J.J. O contrato Social. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1999.



Newton Bignotto
Pós-doutor em Filosofia pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales
Pós-doutor em Filosofia pela Universite de Paris VII - Universite Denis Diderot.
Doutor em Filosofia pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales
Mestre em Filosofia pela UFMG
Graduado em Filosofia pela UFMG





Charge por Ivan Cabral, em 4 de julho de 2013.