quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Na Lata


O Na Lata publica, mensalmente, neste blog, uma entrevista ou um texto interessante - sempre inéditos - que aborda o universo das boas ideias, das melhores práticas e das pequenas e grandes soluções para as questões atuais que envolvem a relação da sociedade com o meio ambiente. Repensar, junto com vocês, será sempre a nossa proposta.


Estamira: mostrar a verdade e capturar a mentira 


A sociedade de consumo atual é marcada pelo excesso. O consumo excessivo gera um excesso de lixo e de resíduos que, por sua vez, geram inúmeros problemas que refletem a forma como a humanidade se organiza e se engana. Dentre esses problemas, a desigualdade social – que é profunda em países como o Brasil – expõe uma série de excessos e de condições extremas de vida. Podemos dizer que essa desigualdade cria realidades que colocam seres humanos na condição de “lixo”, no sentido extremo do desrespeito, do descaso e da negação de uma vida digna.

Marcos Prado, diretor e produtor de documentários importantes, como Ônibus 174 (2002), dirigiu o premiadíssimo filme documentário Estamira. Lançado em 2005,o filme apresenta ao público um pouco dessa realidade desconhecida de quem vive na borda do mundo, em meio ao lixo. Estamira, personagem principal do filme, é uma mulher que foi abusada sexualmente na infância, que foi levada à prostituição na adolescência, que tinha uma mãe que morreu no hospício, que se casou mais de uma vez - e foi traída inúmeras vezes -, que teve filhos e netos, que conheceu a violência em suas várias formas, que tinha amigos calorosos (e até pretendentes!) no aterro sanitário do Jardim Gramacho, que recebia a família nos fins de semana em seu barraco (família esta que lidava de uma maneira interessante com sua loucura, sem rejeitá-la) e que buscava remédios psiquiátricos em um centro de atenção psicossocial (onde estão os “copiadores de receitas semifabricadas”). 

Convidamos um especialista em Saúde Mental e doutor em Ciências da Saúde para conversar com a gente e, a partir do documentário Estamira, tratar de questões que afetam o ser humano nos seus direitos básicos de dignidade e de sobrevivência no mundo contemporâneo. Com a palavra, o Dr. Musso Greco.


Estamira é uma personagem fascinante e uma pessoa com uma história de vida incrível. Como você poderia situar a loucura dela?
Musso Greco - Realmente Estamira é um personagem único! Exaltada e tensa, ela se apresenta como alguém cujo corpo sofre - o que ela atribui ao “controle remoto natural superior” - e que é perseguida pelos “espertos ao contrário”, que controlam o mundo e manipulam a realidade. Em razão disso, ela constrói uma visão de mundo contundente, singular e - por mais que possa parecer estranho, em se tratando de alguém tão enlouquecido - coerente, a ponto de merecer protagonizar um filme. Para os espectadores, as imagens do corpo maltratado e da voz inflamada de Estamira são brutas, ela é uma “estrela” de cinema pouco usual... Parece, como já disse alguém, uma atriz fugida de uma tragédia grega. E seu discurso é feroz, autorreferente, intenso demais. Aos poucos, entretanto, vamos nos inteirando de sua “religião” (uma briga constante com Deus e suas mentiras: “Trocadilo é Deus ao contrário!”), de sua missão no mundo (“mostrar a verdade e capturar a mentira”), e ela deixa de ser tão “estrangeira”, ela se revela mais parecida conosco do que imaginaríamos. Até mesmo as suas crenças, tão bizarras e inverossímeis, começam a parecer legítimas com qualquer sistema filosófico não erudito. Enfim, uma pessoa que, embora se afirme pela singularidade (“eu estou em um outro plano”), e se mantenha nessa terceira margem que é o Gramacho, também pode ser reconhecida como “uma de nós”, pelo lado negativo, ao encarnar emblematicamente a desigualdade social e a crueldade da sua condição.

Em que sentido podemos dizer que a situação de Estamira reflete a desigualdade em nossa sociedade atual: um modo perverso e excludente de organização social? Podemos estabelecer uma comparação e dizer que a grande massa de miseráveis que esta desigualdade produz é colocada na condição de “lixo”?
Musso GrecoPenso que a metáfora do “lixão” no filme serve para confirmar uma vocação perturbadora em Estamira, pois o espectador não sai ileso da viagem cinematográfica. Aquilo que é jogado fora aqui, na nossa casa, retorna do lugar do outro, lá na tela. O lixo, como diz Estamira, “às vezes é só resto, mas, às vezes, também vem descuido”. Assim também são tratadas as mulheres, as mulheres pobres e negras, e, principalmente, as mulheres pobres, negras e loucas (“doente mental é aquele que é imprestável”, diz Estamira).  É lá que ela está. No meio, na beira, em todo lugar (“eu sou a beira do mundo, estou em todo lugar”), porque é “abstrata”. Podíamos interpretar essa abstração de que fala Estamira como sua percepção inconsciente do que é ser nada, não ter registro no mundo, não ter concretude simbólica, restar largada na margem extrema do mundo (a miséria, o lixo ou a clausura de um hospício) como um objeto sem valor.


Há algo na fala delirante de Estamira que possa servir como denúncia social real?
Musso Greco - Não podemos desconhecer que é a radical alteridade de Estamira que faz com que ela não encontre ressonâncias com os outros, que não tenha aliados em sua missão, que não faça laço social a partir de seu delírio. Na sua revolta contra Deus e suas disputas com o misterioso “Trocadilo” (“canalha, traidor, estuprador”), entretanto, ecoam as rusgas metafísicas de filósofos e artistas ilustres, como Nietzsche, por exemplo, para quem “o mesmo homem que criou Deus, colocou-se no lugar dele, ou seja, no lugar do juízo”; ou como Artaud, que blasfema estamiricamente contra “o julgamento de Deus”. Minha compreensão é de que há uma revolta de Estamira contra um mal-entendido fundamental (um trocadilho) no fato de Deus não conhecer verdadeiramente o homem e enganá-lo: podemos ver aí uma espécie de denúncia de uma injustiça básica que ela toma para si, mas que é, pelo que sabemos de sua história de vida, referente a tudo que é descartado no mundo, a começar pelas pessoas “imprestáveis”. O delírio revela-se assim como uma tentativa espontânea de cura, de estabilização, e Estamira apela ao recurso de se produzir como aquilo que faltaria ao universo do discurso para reconstruir a realidade. Estamira está “no centro de tudo”, “além dos além”, “em todo lugar”, e ocupa o posto da “visão de cada um”, tornando-se uma entidade e assumindo uma missão. Não seria isso tudo exatamente uma luta por justiça ou, como ela diz em certa parte do filme, pela “igualdade de todos” ?

As necessidades básicas humanas – tanto as objetivas (alimentação, saúde, moradia, bens materiais, educação, etc.) quanto as de ordem subjetiva (desejo, ações, valores, modo de vida, liberdade, justiça, cultura, etc.) deveriam ser atendidas como direitos universais e inquestionáveis. No entanto, na história da humanidade, isso nunca foi uma realidade. Em que este filme contribui para a conquista dos direitos à cidadania?
Musso GrecoContardo Caligaris, ao analisar o paradoxo da existência delirante de Estamira, disse que toda crença  − ele estava se referindo às nossas crenças “normais” − são delírios que tiveram sucesso e ganharam credibilidade por serem compartilhados pela maioria. O drama de Estamira (e de tantos outros ditos “loucos”) foi ter que inventar, sozinha, os meios de dar sentido à sua presença no mundo. Ela conseguiu essa façanha atribuindo-se o destino de ter de transmitir o que ela vê e revelar isso ao mundo. De certa forma, o diretor Marcos Prado realizou essa missão, ao propiciar a expressão de Estamira em um documentário que rodou o mundo. A metáfora da desigualdade social e da crueldade está ali, para impactar e fazer pensar. Estamira é o retrato da nossa culpa social, de nossos detritos, daquilo que nós queremos esconder no fim de mundo. Em seu transbordamento interior, ela encarna o desespero, e desamarra o espectador de si mesmo, naquilo que tem de confortável e conhecido, deslocando-o para fora de suas referências habituais. Isso instala uma escuta verdadeira, que pode, por pouco que seja, produzir interrogações sobre o que é apresentado. No meio dos restos de uma sociedade cada vez mais voraz, Estamira mostra o avesso das boas intenções e desmascara o que ela chama dos “espertos ao contrário”. O equívoco da ciência, o declínio do político, o engano da religião, o catastrófico das pequenas e grandes violências. Tal qual Marcos Prado, que deu uma casa de presente a Estamira após as filmagens, tenho notícia de certa mobilização após a exibição desse filme, no meio universitário, em ONGs que lutam pelos direitos humanos (principalmente dos portadores de sofrimento psíquico)... Isso pode produzir algum efeito em termos de mudanças políticas.


Ecologia humana é a ciência que estuda as trocas materiais e energéticas entre o ser humano e o seu ambiente. É o campo do conhecimento sobre o qual se constrói a ideia de sustentabilidade, considerando que a sobrevivência individual e do planeta dependem da construção de uma ética individual para desenvolver uma ética global. Há uma ética própria da loucura? Se há, ela pode influenciar os outros, os que não a entendem? Como fica a visão da loucura depois de ver esse filme?
Musso Greco - Caímos aqui em uma delicada questão política que o filme toca: ao mostrar a aparente ineficácia do seu tratamento na rede pública de Saúde e, embora, pelo que vemos, pareça haver uma rede de apoio (amigos, família) em torno de Estamira, perguntamo-nos sobre a visão social da loucura reforçada ou transformada pelo filme. Sabemos que a medicação e o suporte psicossocial têm mostrado relevância em muitos casos semelhantes, permitindo, à custa de um apaziguamento da atividade delirante, uma melhor inserção sociofamiliar. Pelo que vemos no documentário, o tratamento psiquiátrico parece ter pouca importância na vida de Estamira; ela tem pouco vínculo com o centro de atenção psicossocial ao qual está ligada; e ela não parece estar bem, sempre tão exaltada, sofrendo... Um técnico de Saúde Mental, para tratá-la de fato, teria que ocupar um lugar próximo ao que Marcos Prado encontrou, “secretariando-a” na construção de seu delírio... E a proposta de Estamira, sua “ética”, é muito radical: para as coisas “terem jeito”, a solução dela, no final do filme, seria a destruição de tudo e uma reconstrução do zero (“se tiver que me queimar para as pessoas terem lucidez, tudo bem”)...Não acho que a saída pela loucura seja solução para nada. O que fica para mim, após este filme, é uma pergunta: seremos capazes, em termos de política pública de assistência e como sistema de relações na cidade, de acolher as diferenças, e nos reconhecermos nesse outro insondável e refugado que habita a borda do mundo?


Musso Greco é psiquiatra, psicanalista, especialista em Saúde Mental pela Escola de Saúde Pública de Minas Gerais (FUNED), mestre em Psicologia Social pela UFMG, doutor em Ciências da Saúde pela UFMG  e sócio-fundador da ONG Associação Imagem Comunitária (AIC); é coautor, entre outras publicações, de “Corpo, sintoma e psicose: leituras do contemporâneo” (Contra Capa Livraria, 2006).



Entrevista realizada por Élida Murta 
em 20 de setembro de 2011




Estamira: o filme e a realidade


O premiado filme, dirigido pelo diretor Marcos Prado e lançado em 2005, conta a história de Estamira: uma mulher de 63 anos que sofria de distúrbios mentais e que trabalhava há mais de vinte anos no aterro sanitário do Jardim Gramacho, um local renegado pela sociedade e que recebia diariamente mais de oito mil toneladas de lixo produzido na cidade do Rio de Janeiro (RJ). 

Seis anos depois, muito do que é denunciado no filme confirma uma realidade que ainda não mudou: Estamira morreu no dia 28 de julho de 2011, de infecção generalizada, aos 72 anos, por falta de atendimento médico no Hospital Miguel Couto, no Rio de Janeiro. 

O próprio diretor Marcos Prado desabafou, em sua página do facebook, sobre a morte de Estamira:"Estamira ficou invisível pela falência e deficiência de nossas instituições públicas! Morreu depois de ficar dois dias esperando por atendimento nos corredores da morte do nosso maravilhoso serviço público de saúde do Miguel Couto. Ela estava com uma grave infecção no braço, mas foi tardiamente atendida. Obrigado, meus políticos de Brasília, do Rio de Janeiro, que roubam nosso dinheiro e enfiam sei lá onde". 


"O homem não pode ser incivilizado, todos os homens tem que ser iguais, tem que ser comunistas. Comunismo é igualidade. Não 'é' obrigado todos trabalharem em uma coisa só, nem comer uma coisa só, mais a igualidade é a 'ordenança' que deu quem revelou o homem como único condicional". 

(Estamira)



Confira no INdica as dicas de leitura e pesquisa do nosso entrevistado, Musso Greco. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Da Invisibilidade à Cidadania


Jardim Gramacho (RJ). Foto: Marcos Prado

Por Sônia Dias

No livro As Cidades Invisíveis, o escritor italiano Ítalo Calvino brilhantemente nos descreve a cidade de Leônia, onde a opulência é medida pelas coisas “...que todos os dias são jogadas fora para dar lugar às novas”. Noutro registro no âmbito da arte, o filme Estamira nos apresenta esta catadora visionária, a Estamira, que de sua mirada do lixão de Gramacho também nos convoca a repensar nossos conceitos, estereótipos e práticas e nos incita a rever nossos paradigmas perdulários e de descaso com o homem e o meio ambiente. 

As indagações que os dois registros acima citados nos colocam são: quais são as possibilidades existentes de transformação do lixo? Quais as respostas que a cidade pode dar aos sonhos de conquista da cidadania plena daqueles que vivem dos resquícios, das sobras do nosso consumismo voraz? Essas são questões que nos últimos anos vêm ocupando o centro dos debates em torno do tema lixo e cidadania. 

É nesse contexto que o lixo vem sendo atualmente associado à cidadania, trazendo à cena pública o significado contemporâneo do conceito de reciclagem, enquanto mais do que uma ação transformadora de um objeto usado em algo novo mas, fundamentalmente, enquanto expressão da consciência socioambiental, que possibilita geração de trabalho e renda e o exercício da cidadania de setores em vulnerabilidade social, tais como os catadores de recicláveis e os carroceiros do entulho. 

Estimativas do Banco Mundial apontam que cerca de 2% da população das cidades da Ásia e da América Latina sobrevivem da catação. Trabalhando nas ruas coletando recicláveis ou em situações dramáticas de abandono como os lixões a céu aberto, submetidos a altos riscos e via de regra com rendimentos baixos, estes trabalhadores informais do lixo têm clamado por justiça social em várias partes do mundo. São Estamiras, Josés, Marias, Geraldas do Brasil afora que se juntam a tantos outros heróis de outros países na América Latina, Ásia e África. Personagens que experimentam a mais dura exclusão no seu cotidiano mas, que ao mesmo tempo, cada vez mais protagonizam histórias de resistência. 

O mesmo Ítalo Calvino nos dá pistas de utopias possíveis ao nos falar da cidade imaginária de Ândria, onde duas virtudes do caráter de seus habitantes merecem ser recordadas: “... a confiança em si mesmos e a prudência. Convictos de que cada inovação na cidade influi no desenho do céu, antes de qualquer decisão calculam os riscos e as vantagens para eles e para o resto da cidade e dos mundos”. 

Para que passemos da opulência de Leônia para a prudência ecológica de Ândria, precisamos incorporar os múltiplos olhares e as múltiplas falas dos atores da sociedade civil, do setor público e do setor privado num esforço conjugado de reflexão e ação para a concretização de novos mundos possíveis. Um mundo que torne visíveis outros tipos de cidades. Cidades, onde os princípios da solidariedade e da prudência socioambiental sejam o dínamo re-alimentador do movimento da vida. Um grupo de organizações de base e de ONGs e redes internacionais vem trabalhando num projeto global em torno do conceito de cidades inclusivas convocando a sociedade a trabalhar na concretização de um modo Leônia de viver as cidades. Projetos e ações globais do Projeto Cidades Inclusivas e histórias de resistência de cooperativas e sindicatos de catadores e catadoras no mundo, bem como de outros grupos informais podem ser encontradas no site Cidades Inclusivas.  

Faça sua parte revendo seus conceitos, repensando suas ações, contribuindo com a coleta seletiva solidária. A virada coletiva é feita da ação de cada um e de todo.
“O universo é o eco de nossas ações e nossos pensamentos” 
– Pense nisto, VIVA isto!


Estamira.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Na Lata


O Na Lata publica, mensalmente, neste blog, uma entrevista ou um texto interessante - sempre inéditos - que aborda o universo das boas ideias, das melhores práticas e das pequenas e grandes soluções para as questões atuais que envolvem a relação da sociedade com o meio ambiente. Repensar, junto com vocês, será sempre a nossa proposta.

Vamos colocar o livro no cotidiano das pessoas 

Bibliopote (Curitiba - PR)


Bibliopote é uma ideia, é uma proposta, é uma referência e é uma iniciativa democrática e positiva em favor do livro e da leitura. Instalada na Panificadora Pote de Mel, que fica no Centro de Curitiba (PR), a Bibliopote é uma iniciativa original do jornalista Alessandro Martins e do seu blog Livros e Afins.

Frequentador assíduo dessa padaria, Alessandro começou a levar seus livros para uma leitura que acompanhasse o seu café. Percebeu que a Pote de Mel recebia um público variado e flutuante e que, muitas vezes permanecia ali, como ele, por algum tempo. A vizinhança da padaria inclui o Hospital de Clínicas e a reitoria da Universidade Federal do Paraná e, também por isso, o público é bastante diversificado. Lembrou-se de uma experiência interessante e bem sucedida de uma biblioteca instalada em um açougue em Brasília (DF). Daí, ele pensou: por que não em uma padaria? Conversou com o dono da Pote de Mel, Carlos Lazzaris, que gostou da ideia e abriu espaço para a nova biblioteca. Desde 2008, a Bibliopote - Biblioteca Livre Pote de Mel já fez circular mais de 4.000 livros e possui um acervo atual – flutuante – entre 300 e 500 livros. São números significativos, não? Mas significativa mesmo é a proposta que deu certo e que envolve um número cada vez maior de adeptos e de admiradores, e que vem servindo de inspiração para a criação de novas bibliotecas livres pelo País. 

Vamos saber agora o que Alessandro Martins, protagonista dessa história boa, tem para nos contar sobre a Bibliopote.

Alessandro, via skype, na hora da entrevista.


Como funciona a Bibliopote?
Alessandro Martins: A Bibliopote funciona com regras muito claras e simples. Criamos uma política que conta com o compromisso ético das pessoas no exercício da liberdade que é oferecida de pegar um livro emprestado e devolvê-lo quando quiser. É claro que alguns livros não voltam, mas, depois que as pessoas entendem a proposta, elas tomam para si a responsabilidade com o livro e o processo funciona como deve ser.


Quais são essas regras?
Alessandro Martins: As regras – que estão no carimbo impresso em todos os livros do nosso acervo - são as seguintes: 
1. Leve este livro para onde quiser durante o tempo necessário;
2. Cuide dele. Depois de ler, devolva;
3. Este livro não deve pertencer a ninguém;
4. Se ele estiver em prateleira particular, leve-o, leia-o, passe-o adiante ou devolva à Biblioteca Pote de Mel;
5. Se quiser, doe um livro para a Biblioteca Pote de Mel.

Bibliopote - livros em detalhe


Vocês têm algum tipo de registro e controle dos livros da biblioteca?
Alessandro Martins: Não. O único controle efetivo que temos é o carimbo que vai no livro. O carimbo contém justamente as regras da Bibliopote. Assim podemos informar às pessoas sobre os princípios que regem a nossa biblioteca. Existe , também, um livro de registro para atender àqueles que ainda estranham a liberdade que a gente oferece. Mas como é opcional, ele se tornou mais um objeto de design do que uma forma de controle. Porque, na verdade, se o livro voltar, ótimo! Mas se não voltar, tudo bem também. O importante é colocar o livro no cotidiano das pessoas e promover a sua circulação.

Você acha que essa proposta funcionaria em qualquer lugar do Brasil?
Alessandro Martins: Acredito que sim. Mas tem que ser em um lugar com uma grande circulação de pessoas que sejam de diferentes tipos de classes sociais – como é uma padaria, por exemplo. Tem que permitir o acesso a todo tipo de pessoa.

Já existem, pelo Brasil, outras iniciativas também originais que pretendem estimular a leitura e fazer o livro circular, como é o caso da Bicicloteca e da Bibliotáxi. Você já teve notícia de iniciativas que se inspiraram na Bibliopote?
Alessandro Martins: Sim, sempre recebemos notícias de novas iniciativas e fazemos questão de divulgá-las no blog da Bibliopote e meu blog, Livros e Afins. Recentemente, em Indaiatuba(SP), foi inaugurado o projeto “Leitura na Padaria” que, segundo nos informaram, foi inspirada na nossa experiência. Isso é muito bom, pois um dos nossos desejos é que a Bibliopote seja mesmo uma inspiração para iniciativas semelhantes.

Bicicloteca no RJ.

O que você pensa quando ouve alguém repetir que “brasileiro lê pouco, que não gosta de ler”?
Alessandro Martins: Eu não concordo. O brasileiro gosta muito de ler. Veja a internet, por exemplo. Cada vez mais, as pessoas se comunicam por escrito, exercitam a escrita e a leitura. E o Brasil é um dos países que mais acessam a internet atualmente. Sou a favor de que o livro e a leitura estejam no cotidiano das pessoas por todos os meios possíveis. É um movimento cíclico: a leitura na internet estimula a busca pelo livro físico também. O kindle (um modelo de e-book) oferece uma leitura muito confortável também. O principal do livro é o seu conteúdo. O livro impresso é um dos veículos das ideias do autor.

O volume do atual acervo e pela referência de mais de 4.000 livros circulando, a partir da Bibliopote, significa que o volume de doações é grande. Como é que isso funciona?
Alessandro Martins: As pessoas gostam da idéia de participar. As doações nos chegam de todos os lados e por motivos variados, inclusive pelos Correios. No blog da Bibliopote deixamos claro que contamos com doações para manter a nossa biblioteca e sugerimos que se preocupem com a boa condição dos livros doados e sugerimos o que podem fazer com livros didáticos e de conteúdo técnico. Além das doações, as boas trocas também acontecem. 

O acervo inicial da Bibliopote foi feito com livros que eram seus e que, além da quantidade, são livros de ótima qualidade. Como foi, para você, fazer essa doação?
Alessandro Martins: Foi muito tranquilo. Aliás, eu fiz questão de doar bons livros e que estavam em ótimo estado de conservação com a clara intenção de dar o exemplo. Ao entregar os meus livros eu estava conferindo a eles um valor a mais: eles passaram a pertencer a todo mundo. Eu acho que quando alguém guarda o livro na própria estante está roubando a energia de um livro que deveria circular. Não entendo como uma pessoa pode gostar de um livro e, geralmente, não ser capaz de dar esse livro para que outra pessoa o aproveite. Eu criei uma “regra de ouro dos empréstimos”, que funciona pra livros, CD’s e até para dinheiro: “Você só deve emprestar aquilo que você puder dar”. Do contrário, vai ser muito difícil “cultivar amigos e influenciar pessoas...”

Parte do acervo da Bibliopote.


Qual tem sido o retorno que a Bibliopote tem dado para você e para a Panificadora Pote de Mel?
Alessandro Martins: A Bibliopote tem sido uma oportunidade de aprimoramento das relações entre as pessoas. O tratamento cordial que a equipe da Pote de Mel oferece a todos, além do espaço da biblioteca, é o que me faz sentir como um “bom freguês” e não como um “cliente”. Frequento a padaria diariamente e sempre sou bem recebido. Eles estão sempre preocupados em melhorar o ambiente e o relacionamento com os seus fregueses. De minha parte, a Blibliopote foi uma contrapartida física do trabalho que já realizo em meu blog Livros e Afins. O principal produto da relação estabelecida entre pela criação de uma biblioteca livre naquele espaço é justamente a oportunidade, para todos nós, do exercício da ação ética. Além do mais, já perdemos a conta de quantas entrevistas demos sobre a Bibliopote. É ótimo poder divulgar uma experiência que está dando certo.




Entrevista realizada (via skype) 
em 22.8.2011 por Élida Murta.



Links: 
Livros e Afins: Para saber mais sobre as idéias e o trabalho do Alessandro Martins.
Bibliopote: Visite o site da Bibliopote para mais informações sobre doações e visitas.
Panificadora Pote de Mel: Para saber mais sobre padaria, acesse o site.

Não deixe de conferir as boas dicas de Alessandro Martins na sessão INdica.





"Livros devem circular.
Um livro fechado está adormecido.
Se um livro acorda, uma pessoa acorda".
(Lema da Bibliopote)



segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Pessoas transformando cidades...

Depois de apresentar boas ideias e iniciativas vistas no TEDx Curitiba, o vinavina traz, nesta semana, alguns vídeos relacionados aos palestrantes do evento.


Hélio Leites


Cheio de sabedoria e histórias para contar, Hélio Leites é um artista que reinventa materiais e objetos descartados, fazendo da sua arte um verdadeiro teatro ambulante.

O que é tristeza para você?



Marcelo Rosenbaum


O trabalho desse designer tem como inspiração a popularização do design para o Brasil de todas as classes. O vídeo a seguir mostra a trajetória do Projeto "A gente transforma", que reformou o Parque Santo Antônio, na zona sul da cidade de São Paulo (SP). O projeto faz uso das cores para despertar a criatividade e realizar mudanças dentro de uma comunidade, elevando sua autoestima e colocando o poder de transformação nas mãos dos moradores.


A gente transforma - Vídeo Oficial


Para saber mais sobre a Casa do Zezinho, ONG que abriu as portas da comunidade para realização desse projeto, clique aqui. 



Inspira / Respira


O que você faria se, em meio à correria do dia-a-dia, fosse montado um balanço, no meio de uma praça, com o convite de pausar por alguns minutos os compromissos e simplesmente respirar? Essa é a proposta do vídeo, indicado por Alessandro Martins, um dos palestrantes no TEDx Curitiba.

Um balanço


Para saber mais sobre o Projeto Inspira / Respiraclique aqui.








"Uma caminhada de mil léguas começa sempre com o primeiro passo."

(Provérbio chinês)






Pessoal, continuamos com problemas técnicos na sessão INdica
Em breve, este problema será solucionado. Desculpem a falha.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Pessoas transformando cidades...

Durante o TEDx Curitiba, descobertas e trocas interessantes foram percebidas pela equipe vinavina. Essa semana, escolhemos três iniciativas que gostaríamos de compartilhar com vocês. 

Mínimas que são o máximo...

Pacote de Poesia


O Pacote de Poesia é uma homenagem que o SESC Paço da Liberdade faz a grandes poetas da literatura brasileira. Proporciona acesso a obras poéticas de vários autores, mesclando clássicos com contemporâneos, promovendo a prática da leitura e despertando, de forma lúdica, o prazer pela poesia. 

É um pacote de armazém com poemas impressos em folhas soltas de papel kraft. A distribuição é gratuita.


ProLago


O ProLago é um Programa de Educação Ambiental na APA (Área de Proteção Ambiental) do Iraí, localizada na Região Metropolitana de Curitiba. A APA do Iraí abrange as bacias hidrográficas dos rios formadores do Lago do Iraí, utilizado para o abastecimento público de água para mais de um milhão de pessoas. 

O programa tem como principal objetivo comprometer a população que vive na APA com as questões socioambientais, integrando comunidades de cinco diferentes municípios. 

Para saber mais, clique aqui


Universidade Livre do Meio Ambiente


A Universidade Livre do Meio Ambiente, Unilivre, é uma sociedade civil sem fins lucrativos. Um espaço para transferência de conhecimentos sobre o meio ambiente e ecologia, para a população. Uma referência em estudos de preservação de ecossistemas, economicamente sustentáveis. 

A sede da Unilivre é basicamente uma torre de madeira que se integra ao meio ambiente. Foi construída com troncos de eucalipto (vigas e pilares) e complementada com embuia, cambará, cedro e vidro. Uma rampa em espiral dá acesso a salas de aula, escritório e um mirante de 25m. 

Local de produção de conhecimento multi e interdisciplinar sobre meio ambiente e sustentabilidade urbana, a Unilivre desenvolve e executa projetos socioambientais e programas de capacitação para diversos segmentos: escolas, empresas, órgãos públicos, sindicatos e demais entidades do terceiro setor. 

Clique aqui para ver as fotos. 



Detalhe de um recanto na Unilivre.

“A natureza usa o mínimo possível de tudo.”
Johannes Kepler





Pessoal, continuamos com problemas técnicos na sessão INdica. Em breve, este problema será solucionado. Desculpem a falha.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Pessoas transformando cidades...

No dia 16 de julho aconteceu, em Curitiba (PR), o TEDx Curitiba. O Departamento Socioambiental da Vina esteve presente no evento, na pessoa de Juliana Foini, que faz parte da equipe Vinavina.

Para quem não conhece o TED, ou o TEDx, este post veio para explicar o que eles são e como eles são realizados.


TED

O TED (Tecnologia, Entretenimento e Design) surgiu em 1984. Todos os que participam, que comparecem e que apóiam o evento, acreditam no poder transformador das ideias para transformar atitudes, vidas e o mundo. O objetivo é fazer com que essas boas ideias se incorporem, cada vez mais, à nossa realidade. 


TEDx

O TEDx, um pouco diferente do TED, é um programa local, auto-organizado, que proporciona um debate profundo e uma conexão entre as ideias. O conceito é o mesmo do TED, porém, tudo é feito por voluntários, sem cobrança de taxas ou qualquer forma de pagamento. 
O evento não gera renda e não possui nenhum tipo de fim lucrativo. Desde a comissão organizadora até a plateia, são todos voluntários. Os palestrantes, os fotógrafos, os patrocinadores, todo mundo mesmo! Neste ano, o tema do TEDx Curitiba foi “Pessoas transformando cidades”

Entre 17 palestrantes, 40 voluntários, 5 organizadoras e pouco mais de 300 pessoas selecionadas para participar da plateia, estava também presente um desejo comum: o desejo de transformação e formação de rede. O TEDx possibilita aos seus participantes estarem com idealizadores de projetos e ações interessantes, mostrando que é possível pessoas transformarem cidades. 

Se quiser saber mais, neste link  você encontra vídeos com pedacinhos de algumas palestras e uma entrevista realizada com a organizadora do TEDx Curitiba e com dois voluntários que trabalharam no evento.


Em agosto, o vinavina vai postar ideias, ações, projetos e iniciativas vistas no TEDx Curitiba. Fique atento e não deixe de conferir...


Nós somos a sociedade, nós somos as cidades, nós somos a mudança. 
E você? O que tem feito para mudar a sua rua, o seu bairro, a sua vida?






Pessoal, ainda estamos com problemas técnicos na sessão INdica.
Em breve, este problema será solucionado. 
Desculpem a falha.