O Na Lata publica, mensalmente, neste blog, uma entrevista ou um texto interessante - sempre inéditos - que aborda o universo das boas ideias, das melhores práticas e das pequenas e grandes soluções para as questões atuais que envolvem a relação da sociedade com o meio ambiente. Repensar e reinventar, junto com vocês, será sempre a nossa proposta.
Toda criança tem o poder para reinaugurar e transformar o mundo
Toda criança é uma esperança de renovação do futuro. Pensamos em nossos filhos e, diante da forma como estamos tratando o planeta hoje, é inevitável que pensemos em como será o futuro que eles terão para, já adultos, oferecerem também aos seus filhos.
A degradação do planeta, visível e já sentida nas alterações climáticas e nos desastres naturais que estamos vivenciando, é conseqüência da ação destruidora do homem. Nossos avanços tecnológicos precisam, mais do que nunca, considerar as necessidades do equilíbrio ambiental e colaborar para encontrar soluções urgentes que promovam e garantam, daqui pra frente, a sustentabilidade do planeta e o bem estar geral.
Para Adelsin – educador, aprendiz de crianças, brincante, reciclador de brinquedos e de idéias em favor da criança e da natureza – “Esse quadro reflete a ruptura do ser humano com os movimentos da natureza. A consequência dessa atitude é o quadro preocupante da saúde planetária. O aquecimento global é o indicador mais claro e triste do “esfriamento humano”. Mas, para a nossa sorte, as crianças e algumas pessoas espalhadas pelos “grandes sertões” não perderam o seu movimento natural e nem a sua força criadora”.
Observador permanente, Adelsin tem no universo das crianças o seu foco principal de pesquisa e de atuação. Autor de várias publicações voltadas para o educador e o aluno – como a série “Cuidar bem”, desenvolvida para a Fundação Nestlé e posteriormente publicada pela Editora Peirópolis – ele se dedica, atualmente, a um projeto de educação ambiental voltado para as populações ribeirinhas de quatro localidades, situadas na região do Baixo Tocantins e na Ilha de Marajó, no estado do Pará.
Para encerrar o mês de outubro, em que este blog procurou homenagear as crianças e os professores, vamos conversar com o Adelsin e saber o que ele pensa, a partir da própria experiência, sobre a importante relação entre criança, meio ambiente e a nossa esperança por um futuro sempre melhor.
| Adelsin |
As crianças são o nosso futuro e a nossa esperança. Quais são, pra você, as possibilidades de mudança no mundo atual?
Adelsin: Vivemos um momento delicado na história da humanidade. Hoje sabemos que se não forem revistas algumas práticas a nossa continuidade no planeta estará seriamente ameaçada. Por isso, nos mais diferentes lugares da terra, pessoas sensíveis à necessidade de buscar formas de uma convivência harmoniosa com a natureza têm inaugurado novas possibilidades que poderão nos ajudar a seguir adiante. Essas novas possibilidades apontam para práticas sustentáveis em áreas distintas como agricultura, arquitetura, saúde, energia e educação. Essas mudanças de atitude buscam um retorno a uma consciência de unidade planetária. Elas se inspiram em experiências ancestrais desenvolvidas durante milhares de anos de interação natural com o ambiente. Eu acredito que ainda está em tempo de construirmos uma sociedade sustentável, mas ela só acontecerá quando formos capazes de, ao mesmo tempo, respeitar os saberes positivos do passado e decifrar as mensagens do mundo novo reveladas pelas crianças.
Mas o desenvolvimento tecnológico não poderia também contribuir para criar novos comportamentos em favor do nosso meio ambiente?
Adelsin: Como parte do movimento universal, cada ser vivo tem uma natureza de movimentos que precisa ser cumprida para que o seu processo evolutivo tenha continuidade. O ser humano, ao contrário de outras espécies, desenvolveu mecanismos de sobrevivência e de progresso tecnológico tão surpreendentes que criou uma ilusão coletiva de evolução acelerada. Mas, no entanto, o avanço tecnológico não foi desenvolvido em sintonia com os movimentos naturais planetários e, tão pouco, com o devido respeito à mãe Terra. As consequências do desrespeito ao meio ambiente já começam a ser sentidas em todos os continentes através de alterações climáticas, contaminação do solo e das águas e, principalmente, pela desarmonia entre os seres humanos.
A nossa esperança é que a capacidade criadora do ser humano é surpreendente. Quando a ciência estiver realmente a serviço da vida certamente teremos a tecnologia adequada à evolução harmoniosa da humanidade.
Como você vê a infância no contexto atual das grandes cidades?
Adelsin: Eu fico muito preocupado com a imobilidade da infância urbana e os prejuízos que uma vida sem movimento e sem contato com a natureza pode trazer para o ser humano em crescimento. É muito difícil para uma criança desenvolver um sentimento de amor pelo meio ambiente quando o ambiente em que ele vive é árido e contido. É muito difícil vislumbrar um desenvolvimento saudável de relações sociais construídas somente em redes virtuais. É preocupante, também, a construção dos conceitos de respeito e de liberdade numa sociedade de consumo exacerbado, de desigualdades sociais, com grades, cercas elétricas, condomínios fechados e medo. A minha esperança está justamente no fato de que as crianças são surpreendentes e ainda florescem apesar das adversidades. As crianças urbanas brincam nas brechinhas que encontram nas escadas dos prédios, na saída das escolas, embaixo das mesas, nos parques e em alguns projetos socioambientais que se tornaram os novos quintais urbanos.
Qual a relação entre a infância e a formação de uma consciência de preservação ambiental?
Adelsin: Acredito que cada criança que nasce é um passo adiante na evolução da espécie humana. O ser humano criança traz em sua herança genética não somente as características físicas de seus ancestrais, mas toda a experiência acumulada em milhares de anos de convivência com a natureza. Essa experiência evolutiva é manifestada naturalmente nos movimentos da infância, nos brinquedos e brincadeiras que as crianças querem e precisam brincar. Por esse motivo, existe uma cultura universal das crianças com gestos que se repetem, desde o começo dos tempos, em qualquer local do planeta. Quando existe tempo, liberdade e ambiente propício, a cultura das crianças se enriquece e aponta para o futuro. A convivência com os ambientes naturais na infância será de grande importância para o reconhecimento e o desenvolvimento de uma relação íntima com a natureza. Na infância, a criança ainda não tem muito clara a dimensão do futuro, mas a convivência com a natureza irá favorecer o desenvolvimento de uma consciência natural de cuidado com o meio ambiente que a acompanhará nas etapas posteriores da vida. Cabe a nós, adultos, ajudá-las a desenvolver um sentimento de carinho com o ambiente e reaprender, com elas, o caminho da evolução.
Quais seriam as transformações necessárias para que as crianças pudessem ter respeitado o seu direito à infância na sociedade contemporânea?
Adelsin: É preciso primeiro que haja um reconhecimento amplo das necessidades da infância que vão muito além das já previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente. Para que essas mudanças acontecessem de fato seria preciso que houvesse transformações sensíveis na realidade social, política e cultural do País. Seria necessário um novo olhar para a arquitetura das escolas e das moradias. Não deveria ser mais aceitável imaginar casas sem quintal, escolas sem áreas verdes e espaço/tempo para a livre convivência das crianças e dos jovens. Seria necessária também uma atenção maior para com a programação das TVs e com a publicidade voltada para as crianças.
Enquanto isso não é realidade, cada pai ou mãe, ou tio ou avó, pode dar um presente inesquecível para as crianças de sua família. Um passeio no parque, na praça ou na roça; uma história fantástica, acontecida ou inventada; um brinquedo construído como no seu tempo de criança. Esse encontro entre gerações diferentes de meninos e meninas pode ser o início de uma grande transformação, que poderá curar o planeta e salvar a humanidade da extinção.
De onde vem a sua crença de que essa transformação é possível?
Adelsin: De anos de convivência com as crianças do Brasil e da observação das dimensões maiores dos movimentos da sua cultura própria. Um olhar atento para o imenso repertório dos brinquedos universais das crianças com suas variantes regionais revela sinais essenciais do que há de mais elevado na experiência humana individual e coletiva. Já fomos todos sabedores desses segredos, mas a nossa (de)formação social, escolar e cultural, acontecida dentro de uma sociedade monetária e competitiva nos fez esquecer de como é bom viver sem pressa e sem “ego-objetivos”. A sorte é que, a cada dia, nasce uma criança nova em alguma família que é brindada com a chance de começar outra vez. Ninguém fica indiferente e nem mesmo convencional diante de uma criança recém nascida. A criança pequena tem o poder de reinaugurar o novo em cada um que se aproxima do berço. E como ela ainda não fala a nossa língua, cada um de nós procura falar a língua universal do ser humano ainda novo e é aí que o novo pode se restabelecer no velho ser. Como já disse, eu acredito que a criança é o último passo da evolução humana e é ela quem pode nos levar adiante.
| Ravi e Adelsin |
Como você tem desenvolvido o seu trabalho no sentido de contribuir para essa transformação?
Adelsin: Desde que conheci a pesquisadora e educadora Lydia Hortélio, nos anos 1980, me vi contagiado pela luta pelo direito das crianças à infância e à convivência com a natureza. Desde então, tenho aprendido e partilhado experiências vividas pelas crianças do Brasil em territórios de convivência em liberdade. Para difundir a imensa riqueza da cultura das crianças e desanuviar o olhar dos adultos, venho realizando encontros para brincar e conversar sobre a infância, nos mais diferentes lugares do País. Esses encontros têm formatos diferentes como: oficinas de brinquedos, cursos de “educação ambiental”, palestras, etc. Para realizar esses encontros, atuo como ‘agente infiltrado’ da infância dentro de ONGs, de secretarias do poder público e de institutos de empresas multinacionais. Tenho produzido, aos poucos, publicações com brinquedos do inesgotável repertório das crianças. Espero que, nos próximos anos, eu tenha mais tempo para me dedicar à produção de materiais que possam sensibilizar um número maior de pessoas e, assim, ajudar os meninos e as meninas do Brasil a viverem a sua infância como ela merece ser vivida. É a minha pequena contribuição para continuarmos no planeta.
Você poderia nos dar boas sugestões de livros, videos e sites sobre os temas da nossa entrevista?
Adelsin: O livro que conheço que trata da natureza do lugar e da natureza humana em integração e profundidade é o “Grande Sertão Veredas” de Guimarães Rosa. São necessárias algumas lidas para se enveredar naquele sertão.
Um vídeo que acho muito especial e que mostra a criança e a natureza de forma sensível é o Capitão Menino, de Renata Meirelles e David Reeks. (projetobira@hotmail.com).
Quanto aos sites, eu gosto de visitar os de tecnologia alternativa e de bioconstrução. Vale a pena conhecer os sítios dos Institutos de Permacultura e Ecovilas do Cerrado – IPEC e da Mata Atlântica - IPEMA.
Mas bom mesmo é aproveitar que está chegando o tempo da jabuticaba e ir visitar o sítio do amigo, da tia ou do avô, junto com as crianças, no próximo final de semana.
"Ainda está em tempo de construirmos uma sociedade sustentável, mas ela só acontecerá quando formos capazes de, ao mesmo tempo, respeitar os saberes positivos do passado e decifrar as mensagens do mundo novo reveladas pelas crianças."
(Adelsin)





Adeisin sou amiga de seus pais os quais aprendi a gostar.
ResponderExcluirGostei muito de suas respostas. Quando lembro da infancia que tive no Bairro Santo Antonio descabelada brincando de mocinho e bandido (era parceita de meu irmão 2 anos mais velho), jogando bente-altas(será q escreve assim?), goleira do time dele,conhecendo todos os lotes vasios q existiam naquela época( cheguei a achar um feto jogado num deles q transformou naquele acontecimento com policia e tudo)e mais tarde fogando volei com corda atravessada na rua,me entristese ver a limitação de espaço dos meus netos. Moro numa cada imensa somente eu e meu marido mas nem penso em mudar por causa deles.Mas sabe onde eu estava ontem? No "zolorico"com minha netinha de 2 anos.Nos divertimos com a "Zilafa, a ema de bundão, o golila, o ucho e etc. Continue essa luta.
Maria do Carmo
Nota -Tenho foto do Ravi no meu computador
Muito linda a entrevista com o Adelsim!
ResponderExcluirSeria muito bom se conseguíssemos colar em cada máquina pesada, um peso igual de sensibilidade e responsabilidade social. Acho que vocês estão indicando esse caminho, parabéns!
Adelsin,
ResponderExcluirAdelsin a gente não fala. Só escuta!
Obrigada por tudo.
Em tempos tão difíceis...um trabalho de resgate da alma humana.
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